Pistas de pouso e corrida: a vida em 45 minutos

Esse texto foi tirado do medium da Sofia, clique aqui para acessar 🙂

Eu estava enfrentando um dos meus maiores medos: andar de avião. A perna tremia, as mãos tateavam tudo possível para aliviar o TOC, eu aumentava e diminuía a música no fone de ouvido, mudava de faixa toda hora, regulava o banco, apertava o cinto, checava as instruções de bordo e ficava de olho nos celulares alheios. Aquele senhor ainda não colocou em modo avião?

Gosto de me sentir segura, mas desde o começo do dia eu estava uma pilha de nervos. Faltavam 30 minutos para eu estar no aeroporto e eu ainda estava em casa. O tempo estava me pressionando, e nessas horas, existe algo misterioso nesse planeta que faz a gente esquecer de onde deixamos nossas coisas. Por desorganização, pressa e falta de atenção, eu não encontrava meu cinto — a bendita ultima coisa que faltava para eu sair de casa.

Decidi pedir emprestado. Do meu quarto, gritei para minha mãe: Mãe, você me empresta o cinto de segurança?

Ela riu, eu eu estagnei, chocada. Foi um ato falho cheio de sinceridade e beleza. Nas ultimas semanas eu me preparava psicologicamente para enfrentar meu maior medo sozinha e nos últimos segundos, tudo o que eu queria era um cinto de segurança emprestado de alguém que sempre me protegeu.

De volta ao avião eu queria segurança, mas esquecia que vivo em risco toda hora. Viver é risco, certo? E toda vida tem data de validade, até a mais pacata um dia termina. A preocupação por trás desse medo se resumia em uma palavra: coragem.

Nos últimos anos, eu senti que a coragem se esvaziou de mim. Ela virou algo nostálgico, caiu junto com os dentes de leite e deixou um sorriso travesso de criança para trás. Meus dentes duros hoje já não tinham mais forças para mastigar, meu corpo sentia ânsia ao engolir situações em que não me sentisse segura. Aos poucos, eu endurecia as chances de viver a vida como ela deve ser sentida: com bravura, com riscos.

Voando, eu sabia que tinha três grandes medos. O primeiro era o avião cair, o segundo de morrer e o terceiro de não conseguir escrever. O último era mais trágico do que os outros dois, já que escrever era todo o resto de coragem que eu ainda tinha. Coragem às avessas, pois era uma vida às margens seguras do que eu escrevia, cambaleando ao limitar minhas conversas não-ditas e histórias de amor em espetáculos textuais.

Quando desci do avião, me teimo a dizer — mas eu não era a mesma pessoa. Naqueles 45 minutos, algo borbulhava dentro de mim e chiava como uma panela de pressão. Existia urgência em se viver com riscos, com experiências que fizessem minha barriga gelar. E eu atendi aos meus desejos

No dia após aterrissar em terras curitibanas, eu estava conversando com um amigo. Ele matou seus impulsos na mesma época que eu, e sentados num sofá amarelo, lamentávamos como nossas essências iam embora com a rotina. Era o café, trabalho, responsabilidades, dramas emocionais, tempo que ia embora e a vontade que virava lamentação. Um ciclo que é fácil de cair, e nessas de falar sobre ciclos, lembramos de uma roda gigante que tinha ali perto.

Vamos?

Agora?

É. Agora. Sobe e pega seu casaco, te espero no carro.

Rafael, você foi meu gatilho aquela noite. Eu subi correndo, quase como uma criança, peguei meu casaco e te encontrei do lado de fora do prédio pronta para enfrentar os 7 graus curitibanos e uma noite sem destino.

Nossa roda-gigante estava fechada, mas seguimos dirigindo noite a dentro, sem rumo ou hora para voltar. A gente se via no retrovisor e ria, sentindo a emoção de não ter nada planejado preenchendo os dentes de leite que caíram.

Percebemos que estávamos perto da rodovia BR-277 e decidimos embarcar nela. Ela estava praticamente vazia, as luzes brancas dos postes pintavam o cenário com os neons coloridos dos motéis na beira da estrada. Poucos carros passavam por ali, tornando aquele clima todo extremamente agradável e eufórico.

Você abriu as janelas e o teto solar. Eu aumentei a música quando tocou Mr. Brightside e cantei com todo o pulmão — você não sabia a letra, mas batia no volante com o rítimo da música.

Ali, na BR-277 a gente podia ir para a praia. Daria mais uma hora de viagem, mas preferimos ficar dando voltas por ali. Foi então, que eu me dei meus segundos de coragem e da mesma forma que a Amélie coloca os dedos nos sacos de grãos, eu levantei meus dedos timidamente para fora do teto solar. O vento fazia cócegas neles, um pequeno e travesso prazer que se assemelhava a molhar o dedo antes de entrar na água. Mas eu queria mais do que sentir um pouco. Eu queria mergulhar.

No dia anterior, eu tinha pedido um cinto de segurança emprestado para a minha mãe, e naquela rodovia, ironicamente tudo o que eu queria era solta-lo. Clack. Segurei a borda do teto solar e dei um impulso para cima, sentindo meu corpo metade para fora do carro e o vento removendo minhas camadas antigas.

Eu tinha me forçado a ser corajosa. Era preciso só um segundo e meio e quando o medo de morrer vinha, eu só abria os braços e sentia a noite tomando conta de mim. De peito aberto para a vida.

Não posso dizer pelo Rafael, mas essa noite foi um marco para mim — se bem que acredito que para ele também. Fomos embora como Kerouac, indo em direção ao nosso Oeste ou qualquer coisa que nos fizesse quebrar os dentes e começar de novo. Só precisávamos de uma aventura: uma roda gigante desligada, estrada vazia, musica emocionante, luzes coloridas, vento da estrada, ninguém para ver e tantas pistas para a gente percorrer.

Eu e ele numa pista de corrida; eu sozinha em uma de pouso.

Sofia Aureli

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