De cabeça

Esse texto foi tirado do medium da Sofia, clique aqui para acessar 🙂

Por volta dos 16 anos eu gostava de um amigo meu. Ele tinha orelha furada, bebia cerveja no almoço, conversava sobre bandas alternativas e outros afins. Entre todos minhas aventuras amorosas clichês, acredito que essa se superou. Quem por acaso precisava de um romance de ensino médio bem babão?

Eu mesma, mas esse não é o ponto do texto. Vamos prosseguir.

Na época eu tinha beijado um total de três pessoas, incluindo esse meu amigo. Fomos para minha casa, mas por algum motivo que não lembro, ficamos no playground do condomínio, pendulando no balanço.

Conversa vai, conversa vem e chegou um momento de silêncio irremediável. A solução não foi outra para o meu amigo, ele apertou o trágico “Botão dos 10 anos*

* nas definições de um amigo meu da faculdade, o botão dos 10 anos é um instrumento poderoso que os homens usam quando estão com outros caras, e vice-versa. Magicamente, ele te leva para uma época muito segura da sua vida, as vezes voltando dez casas para trás.

Luiz, como vamos chamar minha paixonite da época, começou a se pendurar nos brinquedos, se equilibrando ora com um braço, com uma perna, enfim. A Sofia de 16 anos, não teve outra opção além de ligar também seu próprio Botão.

De repente, surgia ali uma menina-moleca, que não tinha problemas em se pendurar nos brinquedos do prédio e caçoar do garoto que estava do seu lado. Tirando pelo fato de que, a Sofia de 16 e não o alter-ego recuperado pelo Botão de 10 anos, agora vestia calças leggins e botas com salto.

Eis que o momento memorável da noite chega. Longe de algum beijo ou coisa assim, pendurada de cabeça para baixo em um dos brinquedos, escorreguei e cai de cabeça no chão.

Pronto, lá se foram minhas chances. Me levantei meio tonta, meio me sentindo bem trouxa. Não preciso nem dizer que foi a última vez que tive a audácia de ligar meu Botão dos 10 anos e que minha mãe, no segundo que soube o aconteceu, me levou para o PS onde passei o restante da noite fazendo alguns exames.

No final das contas, nada de grave tinha acontecido. A batida na cabeça tinha sido pequena demais para ter algum dano e além da vergonha passada,estava tudo sobre bem. De saldo, tudo o que tirei dessa situação cômica foi um atestado médico com algumas recomendações sobre Trauma de Crânio (TCE)pregado na porta da geladeira até hoje.

Três anos depois, por mais que os caminhos tenham se separado, eu ainda vejo o Luiz. Agora, ambos têm tatuagens, tomam cerveja no almoço, falam de bandas alternativas e é claro, em nenhum de nossos encontros deixamos de lembrar da ocasião cômica. “Lembra de quando você gostava de mim e caiu de cabeça?”.

Mas no fundo, existe algo que me faz lembrar disso com carinho.

Afinal, na minha adolescência já tinha aprendido que cair de cabeça — de maneira abstrata ou não — sempre seria a forma mais genuína de abraçar alguma relação. Seja com o Botão dos 10 anos ligados ou não, a fase entre meu jeito Moleca e Mulher me ensinou que se jogar pode render boas histórias de boteco e algumas vezes, até de amor.

E se não for nenhuma delas, pelo menos ganho alguma coisa pra decorar a geladeira.

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