O mundo não está pronto para mulheres livres

Esse texto foi retirado do Medium da Sofia, voce pode ler ele aqui 🙂

Hoje é um dia significativo. Faz um ano que estou monogâmica.

Imagino que há um certo estranherismo ao ler que alguém “está” um tipo de relacionamento, mas a frase está escrita da maneira mais genuína possível. Eu estou monogâmica como alguém está sem comer carne faz um ano, ou como alguém está de cabelo curto.

A lista de exemplos se estende para sempre. Afinal, nossa vida permite diversas mudanças, metamorfoses, estilos de vida. Tudo depende de como estamos no momento, de como entendemos o ambiente ao nosso redor e a maneira que interagimos com ele.

Vivemos a vida com o pretexto de estar sempre amadurecendo, conhecendo coisas novas. O senso comum diz que conforme vamos crescendo, mais ganhamos autoconhecimento; eu refuto. O autoconhecimento é uma coisa tão bizarra e abstrata que não faz sentido descreve-lo como uma evolução linear.

Para mim, nosso trajeto nesse mundo caminha em espiral, dando voltas e revoltas entre nossas antigas e novas versões. Nossa noção de autoconhecimento está sempre pairada entre o que já vivemos e o que acreditamos ser o melhor para nós.

Foram minhas espirais, meus momentos e minhas interações com o mundo que me trouxeram aqui hoje. É por isso que eu digo que estou, comemorativamente, há um ano monogâmica. Mas hoje não é dia de alguém puxar o parabéns, ou mesmo me trazer um bolo com velas. Hoje é um dia de reflexão e meus caros, ela é dura:

Após oito meses vivendo um relacionamento aberto, e outros tantos como o dicotômico relacionamento fechado, chego a conclusão que o mundo não está pronto para mulheres livres.

Mas para os homens, obviamente sim.

Tudo começou quando entrei na faculdade

Lembro que no começo da graduação, não era algo estranho quando alguém me olhava com surpresa quando contava que tinha um relacionamento aberto. Os rostos surpresos eram acompanhados, claro, de muitas perguntas:

“Você não sente ciúmes? Isso não te deixa mal?”

“Você não se sente mal ficando com outros caras enquanto seu namorado está em casa?”

“Vocês se amam de verdade?”

“Será que vocês não estão assim porque querem manter um relacionamento que já acabou?”

“Eu nunca conseguiria ter um relacionamento assim. Tenho muito ciumes”

“Mas ele sabe quando você fica com outras pessoas? Você conta pra ele?”

“Se eu amo alguém, eu não consigo tirar essa pessoa do foco. Quer dizer, menos quando ta rolando um futebol.”

Eu, bicho de sete-cabeças não-monogâmico, respondia desde o mais absurdo como “vocês ainda se amam?” até o que não era pergunta. Entre elas, a que mais me marcou foi quando me perguntaram se ele não estava se aproveitando de mim.

— Não cara, eu fico até com mais pessoas que ele.

— Você não acha que está usando ele então?

Claro que no mar de questionamentos, existiam até alguns realmente interessados para saber como funcionava. Mesmo assim, parando para pensar depois, nunca vi ninguém explicar seu namoro monogâmico. Meu relacionamento aberto parecia que dava a impressão que ele estava livre para comentários e palpites. Reclamações e sugestões nunca requisitadas.

 

Mas com ele, isso não acontecia

Ele começou a faculdade junto comigo. Jornalismo também, mas em outro lugar. Entre os colegas dele, nosso tipo de relacionamento também era pauta. Só que dessa vez, não tão curiosamente assim, os diálogos não eram invasivos. Nem cheios de dedos, pelo menos, não para cima dele.

Quando ele contava que tinha um namoro aberto, nas palavras dele, as reações — a maioria de homens — eram sempre achando algo legal, diferente, curioso, interessante. “Sorte sua que sua namorada não tem ciúmes”; “Você deve aproveitar”.

Na verdade, um dos únicos casos em que ele ouviu algo mais chato foi quando ele levou um fora. A garota em questão disse que não queria ficar com ele. Por respeito a mim.

Era surpreendente como para ele, o homem, as reações eram boas. Ele tinha sorte, a namorada não tinha ciúmes, ele podia aproveitar numa boa — menos quando meu respeito estivesse em jogo (rs). Para mim, algumas pessoas apoiavam e achavam maduro da nossa parte, mas a maioria dos olhares e das vozes esganiçadas eram de desaprovação. Eu estava usando ele, devia me sentir mal por ele estar em casa, não o amava mais.

Uma dessas frases, inclusive, foi dita por um cara que já traiu sua parceira uma vez. E que encobre os manos quando eles traem as deles. Outra, por uma amiga feminista.

Faz um ano que estou monogâmica

Escolha que fizemos por nossos próprios motivos e que não precisam ser retratados aqui e em lugar algum.

Hoje, como comentei, é um dia de aniversário & reflexão:

Faz mais de um ano que não escuto tanta palhaçada sobre o meu estilo de relacionamento. E isso por que? Pois estou monogâmica. Um estilo de relacionamento estritamente fechado e que não permite comentários, sugestões e palpites.

Acontece, que meu sol em aries não vai permitir deixar passar essa data sem reforçar um ponto que me deixa irritada só de pensar: o mundo não está pronto para mulheres livres. Se estivesse, eu e várias amigas que tem esse tipo de relacionamento não escutaríamos tanto juízo de valor. Não teríamos o amor diminuído por terceiros, nem a responsabilidade de explicar cada coisa do relacionamento.

As coisas seriam fluidas para nós, mulheres que adotam esse estilo, que já adotaram ou pensam nisso. Mas não são, as coisas são duras e as pessoas também. Se já existe um juízo de valor sobre mulheres solteiras que sabem se divertir, imagina sobre mulheres comprometidas e que também sabem?

Esse mundo ainda não está pronto para ver as mulheres tomando seus próprios estilos de vida, traçando sua própria caminhada na espiral da vida. E entre os estilos de vida, aparentemente ninguém está preparado para exercer o amor livre da maneira mais sincera que a expressão permite ser. Para ambos os sexos, para todos.

e se vocês querem escutar algo sobre isso, toma uma playlist pra vocês: https://open.spotify.com/user/sofia.aureli16/playlist/08U4nQs8evZ8jVgeHcFCVJ

Sofia Aureli

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