Eu sou um estrago sem você

São 9 da manhã. Acordo olhando para o lado, e a cama está totalmente vazia. Em todos os sentidos: não tem você ao meu lado, não tem nem sinal da sua presença (seja de espírito, seja como for). O vazio é maior que todo o preenchimento que poderia existir. O que permanece ali é uma angústia incessante ao acordar e, logo de cara, perceber que nada há de se fazer pra que você esteja ali.

Levanto, me olho no espelho. A barba por fazer, olheiras que vão até a parte inferior do meu nariz, cabelo grande demais (implorando pra ser cortado ou penteado), olhos lacrimejando e vermelhos. Olho para a pia e não encontro minha escova, tudo parece tão sujo e estranho. Eu percebo ali, que sou um estrago sem você.

Não é que eu não queira me cuidar. É que eu realmente não consigo. Não tenho incentivos para parecer mais bonito, não tenho vontade de ser mais nada do que já sou na inércia dessa solidão. Sou apenas o que sou, uma alma vaga e desleixada que poderia se expandir, se você conseguisse me dar uma chance, de alguma forma.

Eu fico um estrago por você. E sou totalmente isso. Me desdobro, vou da Conceição até Ferraz de Vasconcelos, nem que seja a pé. Vou na chuva, sem nada em cima pra me proteger. Sem capa, sem toldo, sem dignidade. Tudo isso pra te ver feliz, pra tirar um sorriso dessa boca que eu tanto admiro. Eu me desfaço e me faço em você, quando te vejo tudo vale a pena novamente.

E, se sou um estrago contigo, sou pior ainda sozinho. Isso é meu grande fardo. Já não olho pras outras do mesmo jeito, tenho preguiça de começar uma conversa com qualquer outra. Soa tudo tão superficial, tão mecânico e repetitivo. É como decorar todas as derivadas e integrais de cálculo, só que infinitas vezes, sem um propósito claro. Pra que eu iria querer outra pessoa? Pra quem eu me doaria novamente? Não é nem medo de dar errado de novo, mas é a aceitação de que eu perdi a pessoa da minha vida.

Não quero sair, não quero dançar. Quero minha angústia decorando a minha sala, em cima da mesinha de centro. Quero que todos que entrem pela minha porta a vejam, dizendo um grande “olá” (saudoso, porém melancólico). Não quero mais dirigir e nem ver a cidade pela minha janela. Ela, que já era cinza e fria, se tornou um borrão. Seus atributos são nada mais que dispensáveis.

Sou um estrago sem você, me perdoa por toda essa futilidade. Mas, é assim que a gente se vê. A gente se vê por aí, com você, provavelmente, muito melhor do que eu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s