O Garoto da Camisa Surrada

Entrar em restaurante, bar é uma coisa que me dá calafrio. Odeio. Não poderia me sentir mais envergonhada e exposta. E naquele dia, não foi diferente. Eu de Vans (sapatilha me dá dor no pé, meio frio para sandália) e vestido azul (amo azul) passei rápido entre as pessoas para tornar mais rápido o sofrimento. Quem vê acha até que eu sou toda poderosa e segura de mim. HAHA só que não.

“Cacete, onde cê tá, Thais?” era o que eu conseguia pensar. Quanto mais eu tinha que procurar a desgraçada mais eu prolongava minha caminhada pelo bar, mais vergonha, mais vontade de me esconder debaixo da mesa. “Ainda sou o mesmo, doido apaixonado – cantava com a música -…, puts essa música me lembra ele. Não, para, acabou, ele deve estar solto pelo mundo já” (eu sei fingir muito bem).

“ACHEI!” Pqp, que alívio. Sentei com a Thais e começamos a conversar. Perguntei da faculdade, da família, não a via há muito tempo. Toda aquela “small talk” de quem não se vê por muito tempo. Mas como boa conhecedora daquele tipo de conversa, sabia que jajá a bomba viria, a que eu tentava desviar, uma hora me acertaria e me acertou: “E o Cris, amiga?” Ai,merda. “Não sei e não quero saber, não vejo e não falo desde o término”. Mas a Thais, que apesar de distante nunca deixou de me conhecer, me pergunta desconfiada: “Mesmo, mesmo?” E eu princesa da terra do não dou o braço a torcer respondo: “Miga, obvio, me prometi que não falaria mais com ele”. E aí desviei o assunto porque né, não sou obrigada.

Antes que eu pudesse começar outro tópico, um cara cutucou ela, que ficou toda feliz em vê-lo. Achei bonitinho. Tinha um estilinho desleixado, camisa surrada, calça jeans e cabelo bagunçado. Todo hipsterzinho, vulgo meio preguiçoso, mas ok, ainda achei bonitinho. Eles conversaram bastante e eu só observava com cara de sonsa porque também né, o que que eu ia adicionar naquele papo de amigo de infância deles?

dobra - errejotaAté que ele se senta na mesa e tira a carteira do bolso e cara, eu amei a carteira dele. Tive que perguntar onde ele tinha comprado, me respondeu que comprou pela Internet de uma marca chamada Dobra . A carteira era estampada com a calçada de Copacabana e quando ele comentou que era carioca comecei a buscar palavras com “r” para ele falar. Amei o sotaque.

Ele continuou na mesa com a gente até que a Thais perguntou pra ele dos “textos que ele escrevia”. Pera, textos? Hmm…gosto de textos. Bonitinho e escreve, é minha deixa: Você escreve – perguntei com interesse – homem AMA interesse.

Dito e feito. Ele já tratou de puxar a cadeira mais pra perto de mim, todo animado. Me mostrou alguns textos prontos no celular. Realmente, bonitinho, escreve e ainda escreve muito bem. Fofo. Comecei a entrar na onda e quando eu faço isso fica meio obvio. Tão obvio que eu parecia uma tonta rindo de tudo que ele falava. Comecei a dar graças a Deus na mente por ter ido ao cabeleireiro no dia anterior, unha e cabelo feito, amém. Não poderia parecer a bruxa do 71 naquele momento, afinal, era a primeira vez que eu havia me permitido fazer isso em meses. Alguma coisa sobre ele…me pescou.

E é claro, CLARO que ex sente cheiro disso. Basta dois passos em direção a superação que aparece o fantasma, o despacho de encruzilhada na minha vida pra atrapalhar. Atrapalhar porque a idiota aqui ainda consegue sentir alguma coisa. “Recusar chamada”, apertei no celular (doeu, mas eu fiz). Ele, ao meu lado, percebeu minha cara de nojo (aquela que eu faço até a morte antes de admitir que ainda gosto daquela coisa) e perguntou quem era. Até pensei em responder “minha mãe”, “a vivo” ou “trote”…mas não, foda-se, já tinha ficado muito na cara: Meu ex. – respondi com o desprezo que aquela criatura merece quando alguém fala dele. 1,2,3,4 chamadas, o Cris não parava, naquele momento eu nem queria mais atender, queria conversar mais com o bonitinho…primeira vez que isso acontecia. MANO CRIS DÁ UM TEMPO!

E se acha que ele deu? Claro que não. Partiu pra mensagem, bêbado, só escrevendo bosta. Que tal não ser um bosta próxima vez hein, fofo? Ai que ódio. Vou ignorar, jogar em baixo do tapete. Precisava me recompor, falei que ia ao toalete. Lá, respirei fundo, tentei colocar os pingos nos “i’s”. Não vou dizer que a ligação não tinha mexido comigo. Ao mesmo tempo o bonitinho tinha mexido comigo de um jeito que ninguém mexia há meses. Pra que isso? Me diz? As vezes acho que minha cabeça é mais doida que o gato da Alice. Futuro, passado, futuro, passado….futuro. Eu estava esgotada de sofrer, de pedir e idealizar alguém. O bonitinho estava lá, o Cris sabe lá Deus onde…cansei de amor velho e sofrido. Voltei pra mesa, os dois estavam quietos, foi eu chegar pra conversa recomeçar.

De repente, o bonitinho começa a checar o celular preocupado. Estava sem bateria e ele basicamente surtou. Disse que tinha que buscar a irmã não sei onde, que estava atrasado e tinha de ir. Me desanimei, queria tanto que ele ficasse mais um pouquinho, pedi pra que ele ficasse mais…e ah! Ele nem tinha pedido meu telefone ainda, fiquei na dúvida se eu deveria tomar iniciativa ou não. Mas aí o gato da Alice já começou a imaginar milhões de hipóteses malucas, dignas da minha insegurança afogada: Vai que ele namora e é canalha, ou que é só simpático assim mesmo, não sei. Ele se levantou para pagar a comanda, Thais ia me contar algo, quando veio ele com um papel e caneta.

Achei meio estranho e fofo, nunca tinha ficado tão feliz em ver um chamex e uma bico, mas mantive a pose, claro. Ele pediu e eu anotei meu número. Nos despedimos e fiquei observando ele ir embora. Sei que a Thais falava mais que a boca, mas eu não conseguia prestar atenção em uma sílaba. Eu só queria saber onde aquilo ia dar.

Esse texto terá uma continuação na quarta que vem e pode ser acompanhado por aqui ! E só foi possível graças a nossa parceria com a dobra, essa história não teria acontecido sem a ajuda deles ❤

Bruno Amador – clique para me conhecer melhor

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