Ela é liberdade

Ela olhou para cima enquanto pensava sobre o nada. Apoiou-se para frente sobre a mesa, deitando a cabeça em cima dos seus braços cruzados. Era o tédio que a tomava. Ela não fazia ideia de como sair daquela situação, e o que mais incomodava era saber que essa não era a primeira nem a última vez.

Seu sonho era poder se desligar do mundo sem ser julgada. Olhar pela janela da classe e não entender nada do que o professor falava, e mesmo assim, perceber que sabia de tudo. Tudo que não estava escrito, tudo que não estava digitado em algumas folhas de papel que foram impressas por conveniência de uma didática chata. Ela sabia que escrever sobre ciências, ler sobre métodos, pesquisar sobre a biologia, eram coisas necessárias no meio em que estava. Não negava a importância disso. Mas, ela não entendia como a liberdade não era uma coisa de valor pra todos.

Ela não entendia porque, em breve, deveria virar uma adulta. E não entendia porque algumas cobranças chegavam mais cedo que outras. Por que ela deveria se comportar como uma adulta em uma reunião de família com uma porrada de parentes que nunca foram vistos antes, em uma cerimônia de reveillon? Eles apenas chegavam, bebiam, comiam, diziam como ela havia crescido sem que ela nem mesmo lembrasse desses rostos. Em troca, ela deveria dar respeito, gratidão e algumas risadas de piadas toscas socialmente vergonhosas.

Em outros momentos, ela era nova demais. Nova demais para sair sozinha. Nova demais para dormir onde quisesse. Nova demais para questionar e fazer tantas perguntas. “Por que alguém tão nova era tão inconveniente?”, diziam. Essa era uma das questões que ela também não sabia responder. Para sua alma, perguntar era a chave de conhecer. Para os outros, era apenas ignorância e curiosidade em excesso.

Ela não sabia que carreira seguir, e também, pouco importava. Mas, para o resto do mundo, esse mesmo resto que não mudaria nada independentemente de sua escolha, isso era o mais importante no momento. E ai dela se escolhesse errado. Seria julgada, mais uma vez. Seria massacrada por olhares de reprovação que não entenderiam que ela sempre foi de seguir o que seu coração mandava.

Ela era a janela para o que havia lá fora, e todos conheciam, mas tinham medo de ir buscar. Por isso, incomodava mais e mais, a cada passo que dava em direção ao desconhecido. Ela era o desconhecido em si, porque se não podia se entender, quem eram os outros para entendê-la? Ela era sabedoria, uma sabedoria que ninguém conhece ainda, mas que vão usar de exemplo quando forem trocar algumas ideias sobre vanguarda. Ela dança e encanta, sem sair do lugar. Seus pés batendo no chão impacientes por conta de algo chato e inconveniente são um convite para o que ela realmente quer.

E por enquanto, ela ainda continua na mesma sala de aula. Batendo esse pé no chão, fazendo algumas perguntas para si mesma, olhando pela janela e vendo alguns morrinhos verdes. Pensando sobre como seria poder ser um pássaro. O professor chama a atenção para o seu pé frenético. Ela para. Mas, só por alguns segundinhos. Logo ela volta, porque ninguém segura sua liberdade.

Lucas Fiorentino – clique para me conhecer melhor.

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