Eliza

Ela era bonita, na verdade linda, uma daquelas garotas que você poderia passar o dia admirando de biquíni que sempre acharia alguma parte diferente do corpo para babar, ela entortava pescoços alheios e causava ciumes em namoradas e ex-namoradas, ela era um perigo, namorar? Nunca foi de recusar a ideia, mas gostava de ficar sozinha, não existia companhia melhor que seus cobertores e Netflix.

Eu não sou feio, nunca fui de se jogar fora, sempre fui uma daquelas pessoas que inspiravam confiança rápido demais e ela sempre foi aquela pessoa simpática, não irei dizer que formávamos um belo casal porque eu sempre achei ela bonita demais para mim, mas nós nos entediamos, sempre soube que ela precisava do seu espaço e tentava ao máximo não invadi-lo, eu sempre fui uma pessoa mais caseira e parecíamos nos completar nisso, o duro é quando ela vinha com umas coisas completamente perdidas para nós assistirmos, sempre teve essa mania de gostar de umas coisas que ninguém conhecia.

Eu nunca gostei de mudanças, quando minha mãe me disse que eu teria que mudar de escola meu coração parou. Minha barriga doía só de pensar em todo estresse de fazer novos amigos, me adaptar a nova escola, novos professores tudo novo.

Na noite anterior ao primeiro dia de aula eu não consegui dormir. Entrei na sala com a maior olheira do mundo e quando a vi, achei que o sono estava me enganando. Eu estudei por 15 anos numa escola gigantesca, vi todo tipo de garota e nenhuma segurou meu olhar tanto quanto ela. Sentada encostada na parede oposta a porta, enrolando uma mecha de cabelo no indicador direito seu corpo estava ali, mas sua mente com certeza não.

Perguntei seu nome para o garoto que estava ao meu lado e ele me respondeu: “Eliza”. Demorou alguns meses para rolar algo, nunca fui muito bom com isso de dar em cima, o papo era morno, eu esperava o momento certo para esquentar, aproveitei algumas brechas e uma festa para começar a jogar umas indiretas, riso pra lá, riso pra cá e acabou ficando nisso.

Tentamos manter em low-profile esse papo, até que depois de tanta troca de olhares, sorrisos inexplicáveis e esbarradas propositais, ficou evidente pra todos que algo estava para acontecer ali, bastou nos encontrarmos de novo no fim de semana que o inevitável aconteceu. Óbvio que toda a sala já estava sabendo na segunda-feira, meio sem jeito ouvimos os comentários, respondemos perguntas, enfim, passamos um pouco de vergonha.

Ela não era uma pessoa que necessitava de uma companhia embora curtisse muito um carinho, que não né?

Começou a se encostar em mim nos intervalos – embora ela sempre vá negar veemente isso – e começamos a fazer mais coisas juntos, íamos almoçar, saímos algumas vezes, fomos ao cinema, à restaurantes, sempre mantivemos essa coisa de nada sério, essa coisa leve.

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E ela sempre me deixou tonto.

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E eu acho que essa leveza era o que fazia o relacionamento fluir, sempre me disseram que a nossa maior graça era que sempre estávamos sorrindo e isso é tão raro hoje em dia. Todos tentam passar essa imagem de casal feliz enquanto as brigas rolam solta por trás das fotos do instagram, ela era bem na dela, não fazia questão de fotos juntos, mudanças de status ou declarações quilométricas, ela sempre foi simples.

Mas como nem tudo são flores nessa vida, não demorou muito para aquela pulga atrás da orelha surgir, nos víamos todo dia e o coração começou a bater mais forte, mas a Eliza sempre foi muito indecisa, me mandava mil fotos de mil vestidos para decidir qual usaria no almoço da família mais tarde e nunca ia com o que eu escolhia, “mudei de ideia no ultimo minuto” ela me falava, adiei por um bom tempo a tal da pergunta que eventualmente surgiria. O que nós somos?

Ela sempre foi de se estressar com a mesma facilidade que ficava super feliz e isso me deixava maluco. Isso nunca tinha sido um problema, mas começou a incomodar e as brigas começaram a aparecer, acabamos tendo um discussão que pôs fim em tudo poucos meses depois do primeiro beijo.

O clima ficou meio chato na semana seguinte, mas nada que o tempo não cure, voltamos a ser amigos, voltamos a nos falar, só que evitávamos ficar sozinhos, foi assim durante os dois anos seguintes até nos formarmos, as trocas de olhares continuaram, mas aquele pé atrás impedia que a história se repetisse.

Seguimos caminhos diferentes embora as rotas fossem paralelas, eu fui fazer administração e ela publicidade, cursos que no fundo são parecidos, ela tinha essa vocação artística dentro de si que facilitava as coisas no curso. Nos encontramos esses dias na escola, era festa junina e a sala toda tinha combinado de ir, não a via desde a formatura e não sabia se estava emocionalmente preparado para isso. Eu não estava. Logo quando acordei vi no celular que naquele mesmo dia, há três anos atrás nos beijávamos pela primeira vez, não sabia se ela se lembrava e com certeza não puxaria esse assunto.

Desenterrei uma camisa quadriculada do meu armário e fui para a escola, meus olhos sempre atentos buscando ela pela multidão, quando a vi, fingi que não vi, não sabia o que falar – depois ela me contou que havia feito o mesmo – só tomei coragem para dizer oi quando encontrei todo mundo junto, coloquei a mão na sua cintura antes de cumprimenta-la e confesso que lutei com todas as minhas forças contra a tentação de virar o rosto para beija-lá. Todos falando das faculdades, outros do cursinho e eu parecia estar em outro mundo observando-a, ela continuava linda, ousaria dizer que estava ainda mais bonita.

O pessoal se separou, fui para o outro lado do colégio, encontramos alguns professores que perguntaram sem cerimônia, “e você e a Eliza, se resolveram?” sorri e respondi que não tinha o que resolver, sabiam que eu estava mentindo, mas mudaram de assunto. Estava focado na conversa quando uma garotinha me cutucou com um correio elegante na mão, não entendi direito da onde vinha aquilo, agradeci e fui ler o que estava escrito, esperando alguma brincadeira idiota dos meus amigos. Mas quando abri o papelzinho em forma de coração, fiquei atônito, “3 anos”. Pedi licença às pessoas e fui atrás da Eliza. Ela estava em uma roda de amigas, pensei em puxa-lá de lado, mas decidi inovar, me aproximei por trás e mostrei o papel para ela, ela sorriu segurando a minha mão, nos abraçamos e eu pedi no seu ouvido para irmos dar uma volta.

Demos uma volta pela escola, depois na cidade e acabamos dando uma volta na minha casa, ficamos tontos e decidimos que só nos separaríamos de novo quando as coisas parassem de girar. Só que a Terra tem essa mania de ficar dando voltas. Seu nome é Eliza e ela sempre me deixou tonto.
Bruno Amador – clique para me conhecer melhor

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3 comentários sobre “Eliza

  1. Ooie, tudo bem ??
    Meu nome e Midiã, ele e bem diferente e nunca acho um texto que me descreva bem, e quando você escreveu “ela e de sagitário”
    Simplesmente parecia que me conhecia a anos. Se você podia escrever um artigo sobre o meu nome. Eu agradeço muito, eu sou muito fã do seu trabalho. nunca pare com esse trabalho lindo que você faz.

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