Indefinidos

Estávamos bêbados de uísque e cerveja barata dividindo espaço num murinho no estacionamento, e mesmo sem vento algum eu usava seu moletom verde. É que eu gosto quando seu perfume se mistura ao meu, assim posso te ter um pouco mais perto depois da despedida. Sonolenta como sempre me deitei no seu ombro e fiquei fixa olhando a rachadura da calçada a nossa frente, até que senti seus olhos me encarando e sabia que você estava formulando alguma piada para rir do meu fraco com a bebida, ou talvez falar que sou pirralha demais para estar acordada as 23 horas da noite entre tantas outras coisas que você diz para me irritar.

Mas não foi o que aconteceu, você aproveitou esse frágil momento onde as verdades são tragas a tona com muito mais facilidade e ao invés de perguntar sobre aquela foto engraçada das férias no interior do Mato grosso do Sul ou sobre aquele vídeo cantando Bruno e Marrone no bar próximo do trabalho você virou e mandou na lata: “Porque você nunca escreveu sobre nós?”. Fiquei muda e enquanto seus olhos castanhos encaravam meu rosto confuso, comecei a imaginar o que fazer para fugir daquela situação. Podia simular um desmaio, mas vai que você me levasse ao hospital e eu tivesse que tomar glicose na veia? E só Deus sabe o quanto tenho medo de agulha. Correr me pareceu a ideia mais viável e quando estava pegando impulso alguém que não lembro – contudo sou muito grata – apareceu e nos chamou para ir embora.

Acordei na manhã seguinte com o fantasma da sua pergunta na cabeça. Afinal porque eu nunca escrevi sobre nós? Já escrevi sobre tempo, vizinhança, ex namorado, atual namorado, bichinho de estimação e acredite se quiser querido ate signos já fizeram parte do meu repertório. Contudo, dentre todas as coisas nunca esbocei nada sobre a gente. E o que não falta é repertório. A começar pelo dia que nos conhecemos, você me convidou para fumar e não tinha cigarro sempre achei que esse seria um bom cenário para alguns dos meus contos, também teve a vez do carnaval que de tão bêbados amarramos o cadarço dos nossos tênis jogamos para cima e quem conseguisse pendura-los no fio do poste primeiro pintava o cabelo de azul. Melhor aposta que eu já perdi.

Fui passeando por todas essas recordações e ai eu soube, cutucando na memória entendi porque nunca escrevi sobre nós. É que toda boa historia precisa de começo, meio e fim. É necessário um quem, quando, onde e isso nós nunca tivemos. Somos assim indefinidos. Nosso sinônimo é impreciso e nossa composição incerta. Indefinidos. Como se vivêssemos eternamente no meio de alguma coisa, sentados em cima do muro na duvida entre ir, ficar, amar ou finalmente pontuar um adeus. Será que o ascendente da nossa relação é libra? Ou será que somos como os casais hipster’s  dos filmes do Woody Allen que vivem uma relação maluca, contudo pincelada com um tom de realidade?

Afinal o que nos aproxima é comum, temos o mesmo mau gosto musical e o paladar apurado de uma criança de 10 anos – também brigamos como se tivéssemos 10, mas isso fica para outro texto. Essas coisas por si só já nos tornaria clichê, exceto pelos sentimentos.

Somos mais que paixão e menos que amor. Com grande potencial para o capricho, mas nossa relação não é de um todo súbita. Mais uma vez indefinidos. Poderia dizer que somos luxuria, mas não dá, ao afirmar isso eu estaria anulando as conversas, as brigas e os dias que compartilhamos sem de fato nos encontrar. Me sobra afirmar que somos loucura. Um drama insano de dois despedaçados procurando se retalhar um no outro, dois que se gostam… Mas será que se gostam mesmo? Com muitos mais motivos para ir do que para ficar (eu disse que tínhamos um tom clichê).

Então ai esta sua resposta meu bem. Simples e objetivamente nunca escrevi sobre nós porque é difícil para caralho rascunhar sobre algo tão incerto, e eu não ligo que sejamos essa corda bamba, acho nossa reticências extremamente poética e nada original. E no fim dentro do nosso amor que não é amor, da nossa paixão que não é só desejo seguimos juntos e as vezes separados, mas para sempre (ou não) condenados a viver esse sentimento inconcluso pagando a penitencia de sermos indefinidos.

P.S. Finalmente escrevi sobre nós

 

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