Contagem Regressiva

Eram seis da tarde. Que tipo de festa em condomínio vai até as duas horas? Essa iria. Cada um levando a sua bebida, lotando uma geladeira inteira. Quando menos da metade das pessoas tinham chegado, ela já estava prestes a explodir de tanta coisa dentro. Ali, eu já sabia que alguma coisa não poderia dar certo.

Eram sete da noite, nesse momento. Eu comecei a beber e não parei mais. Aquilo era como um paraíso: meus amigos todos reunidos (alguns que eu não via há anos), o anfitrião da festa felizão porque tinha conseguido colocar aquele tanto de gente num mesmo cubículo, música alta (de preferência, aquelas músicas bem ruins, mas que quando toca em festa assim, ninguém para de dançar). Tudo perfeito. A noite começando ainda, eu estava suavemente suave naquele momento.

Eram oito da noite agora. E uma coisa engraçada havia acontecido. Uma amiga minha que eu não via há muito tempo tinha ido pra festa. Aquele típico caso de esnobada no médio porque ela era meio estranha, mas agora, vocês devem imaginar como ela estava agora. Um espetáculo. Quando vi aquilo me assustei, imaginei que fosse efeito da bebida, mas meus amigos estavam ali, mais sóbrios do que eu, para provar que eu não estava errado.

Eram nove da noite. Meus comentários surpresos sobre o que eu achava dela fizeram com que todos ali começassem a agitar pra que a gente ficasse. Não é algo pra se surpreender. Eu mesmo estava gostando bastante de tudo aquilo ali. Mas, ainda me sentia mal. Sabe quando a gente começa a pensar em como era idiota quando mais novo? Em todas as pequenas tretas desnecessárias, tantas amizades perdidas por nada, tantas oportunidades como a de hoje. Se ela me desse um fora, seria algo totalmente normal, afinal, eu nunca fui um cara pra se admirar.

Eram dez da noite. Encontrei ela numa parte escura do salão, a luz não chegava ali porque algumas outras garotas haviam apagado tudo e colocado a música no máximo. Eu queria muito morar em um prédio assim, porque logo às dez, a caixa de som estava estralando no máximo. Me aproximei dela como quem não quer nada, comecei a perguntar sobre a vida. Por incrível que pareça, essa parte foi totalmente natural de mim, eu não estava com nada em mente. O fato de sempre parecer um idiota com ela me deixou mal em vez de provocar uma vontade de me redimir. Eu não sabia como fazer pra sair do embaraço, embora estivesse bêbado, e as coisas melhorassem um pouco.

Eram onze da noite, a gente conversou tanto, e o combo de preocupação interna comigo mesmo mais bebida mais escuridão não tinha me deixado reparar que ela estava com lágrimas bem pequenas nos cantos dos olhos. Aquilo me deixou bem mal. O que eu podia ter feito? Tava tomando todo o cuidado pra não fazer alguma besteira até ali. Perguntei o que havia acontecido, e ela simplesmente não sabia responder. Assim como eu, ela tinha alguma dúvida na cabeça, alguma coisa que a incomodava, mas que ela não tinha a resposta pra resolver aquela merda toda. E isso a deixava angustiada. Me vi em uma garota que não trombava há anos. Me vi em uma garota que antes, pra mim, era “zoada” ou seja lá o adjetivo escroto que caiba aqui.

Era meia-noite e eu não havia conseguido ajudá-la com isso. Ela dizia que gostava de ficar sozinha nesses momentos, mas eu insisti em tentar ajudar, tentar dizer alguma coisa bela que como num passe de mágica, resolvesse tudo. Mas, a vida não é como em filmes e as palavras que coloco no papel não saem espontaneamente da minha boca. Resolvi deixá-la sozinha, não sabia como aquilo podia dar algum ar de melhoras pra ela, mas testei, já que nada funcionava até então.

Eram uma da manhã, e eu tomei um ar fresco. Meus amigos cornetando, achando que tinha rolado alguma coisa. Outros, mais curiosos, perguntando os detalhes. Não falei nada. Apenas pelo meu olhar, dava pra saber que nada de bom tinha acontecido ali. Só que resolvi não contar a ninguém. Aquele silêncio angustiado nosso numa festa que era pra ser só alegria seria nosso segredo. Ninguém merecia ficar sofrendo pelas tristezas de outra pessoa. A não ser que suas tristezas coincidam. Eu estava ficando sóbrio e comecei a perceber realmente como aquilo tudo tinha me deixado angustiado. Eu olhei pra ela pelo vidro do salão e a vi, mesmo chorando, com toda a sua beleza. Ela era mesmo linda, e eu havia perdido algo ali. Mais tarde, descobri por um conhecido dela que eu não ia conseguir nada mesmo, ela tinha um rolo bem sério.

Eram duas da manhã, e todo meu ego tinha esvaído. Eu, com toda a soberba do mundo, havia estragado uma bela de uma noite. Não curti muito com meus amigos, saí de cabeça cheia, com dúvidas bizarras e com questionamentos sobre eu mesmo. Fui embora pensando em tudo de uma vez. Que porra de festa de condomínio vai até as duas com música alta? Essa questão era o menor dos problemas da noite.

Lucas Fiorentino – clique para me conhecer melhor.

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