Minha Primavera

Diziam ser primavera, já via as flores pelo caminho, estava uma noite bonita, quente e perfumada pelas pequenas flores brancas daquela velha árvore… Em mim, já sentia os botões das flores desabrocharem uma e outra e outra. Apoiada naquele muro rústico, ainda sem terminar, com o olhar perdido em tantas pessoas a passar, subirem em seus ônibus e partirem, as palavras da música que tocava nos meus fones brancos me faziam pensar na importância dos olhares, vi tanto olhares sinceros nos abraços de despedida e vi tantos outros aliviados no fim de mais um dia de trabalho…

Reparei em um olhar que destoava dos outros, era o seu, ainda não sei seu nome, talvez nunca descubra mas saiba que essas palavras são pra você, que passou aqueles 40 minutos, numa rodoviária em reforma, reformando meus sorrisos. Não trocamos uma sequer palavra, nem precisávamos…

Não me esquecerei tão fácil esses olhos verdes fixos aos meus, sempre me pergunto o porquê dos olhos verdes me balançarem, talvez Freud explique, ou talvez só seja a lembrança dos ternos olhos verdes do meu pai… Prefiro que Freud não explique, até porque em momentos como esse não há explicações que definam o peso daquele olhos amendoados! Abaixei os olhos, sem saber pra onde olhar ou o que fazer, senti minhas bochechas arderem, não queria acreditar que já estava ficando tímida por um simples olho verde. Decidi buscar seu olhar novamente, mas me surpreendi, achei um sorriso, aaaah… e que sorriso! Não conseguia acreditar que tanta beleza pudesse estar junta numa só pessoa, começo a rir por me achar uma tola…

Apaixonada Ao abaixar o olhar, senti um aperto forte no peito, o brilho daquele anel arrancou de mim as flores que já haviam desabrochado, não podia acreditar, meu olhar mudou, o sorriso sumiu, mas o seu continuava ali, a me destruir, será que você era feliz em me fazer triste? Não podia ser… E realmente não era, olhei para o anel e voltei a olhar pra você em um sinal de aviso, de que eu já sabia toda a verdade. Não esperava por isso, mas você saiu andando e levando com você os últimos botões…

Desisti de buscar olhares, talvez eles também mentissem. Vi meu ônibus chegar, de cabeça baixa e já com os cabelos presos, senti uma mão nos meus cabelos, a desmanchar todo aquele coque, com raiva virei para ver quem ousava mexer no meu marco de tristeza, e me deparei com aquele verde que antes fora tão lindo e naquele momento só me causava dor… Voltei o olhar para o ônibus, incrédula, senti uma voz no meu ouvido que não parecia humana… Talvez não o fosse. Aquela doce voz, que trazia consigo um perfume melhor que o da árvore velha, me fez florescer com poucas palavras ” você pode estar partindo agora, talvez nunca mais a veja mas seu olhar permanecerá comigo, quem sabe um dia encontre alguém com esse olhar e que dê um significado a esse mero anel”. Subi no ônibus confusa, nunca foi tão difícil achar minha poltrona. Ainda sem entender, olhei através da janela e lá estava o verde mais lindo que já vi a me olhar, aquele olhar eu ainda não havia visto, um olhar que me despertou uma intensa vontade de desistir daquela viagem e talvez entender o que nem Freud explica…

Ele abaixou os olhos e eu baixei a guarda, me pus a escrever, tudo isso não poderia ser em vão, mas me peguei pensando que talvez não fosse pra ser só meu aquele olhar, você ainda haveria de ser a primavera de muitas…

Rafaella Carballo

Aqui no site temos um projeto que se chama Quinta Colaborativa (clique no link para saber mais sobre), toda quinta – se possível – postaremos textos que vocês nos enviarem, então se você tiver algo guardado aí, nos mande, se algum amigo seu escrever, fale da gente. Você pode entrar em contato pela chat da página, ou comigo mesmo pelo Facebook. Ou pelo email umquartodepalavras@gmail.com, só coloque no assunto “quinta colaborativa”. Se você não quiser que seu nome apareça podemos colocar uma abreviação ou nem colocar nada.

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