Depois do quarto

As marcas eram evidentes em ambos, o rímel borrado indica que ela esqueceu de tirar a maquiagem, a vermelhidão nas coxas mostra que na verdade ela foi forçada a ficar com a maquiagem. Minhas costas doíam, provavelmente porque ela me espremeu contra a parede a noite toda, minhas costas estavam vermelhas, provavelmente porque aquelas unhas são um perigo, isso sem falar dos roxos que remanesciam no meu pescoço e do meu quarto que parecia uma zona de guerra, os lençóis estavam no chão, o ar condicionado ligado no máximo e um edredom espalhado por cima de nós, fora as diversas peças de roupa espalhadas pelo chão e das migalhas de pão em cima da bancada, de onde saíram essas migalhas?

Acordei antes que ela, ela realmente parecia um anjo dormindo, um contraste irônico com as cenas ocorridas nesse mesmo espaço algumas horas atrás, com todo cuidado me deslizei para fora da cama e comecei a recolher as coisas do chão, deixei as roupas em cima da minha bancada, joguei o lençol no canto da cama e fui pra rua comprar pão ou qualquer coisa pra nós comermos.

Quando chego em casa ela já estava de pé pondo a mesa, perguntei como ela sabia que eu tinha saído para comprar o café, ela riu e disse que me conhecia, liguei a TV e esperei ela voltar do banheiro para comermos. Quando ela sentou a primeira coisa que ela disse foi “como vou explicar essas marcas de unha pra minha mãe?”, sorri aquele meu sorriso meio malevolente e não disse nada, ela me chamou de idiota e pediu o suco.

Quando saí da mesa ela ficou parada olhando o celular por um tempo com uma cara meio séria, eu sabia que ela ia me pedir algo complicado, ela sempre faz essa cara quando vai me pedir algo que eu teria preguiça de fazer, mas que por ela, me esforçaria, de costas pra ela pondo a louça na pia pedi pra que ela falasse o que ela queria, ela levantou, me abraçou por trás e disse, você não quer me deixar em um restaurante lá perto da Paulista não? Refleti, pensei muito, me fiz de difícil, mas aceitei, disse que a levaria e aproveitaria para comprar alguma coisa nas galerias que tem por lá.

Com um “eba” ela saiu correndo pro quarto berrando que ia tomar banho, a filha da mãe já tinha planejado tudo, sabia que teria um almoço em família e trouxe uma troca de roupa e a maquiagem para se arrumar e ir direto daqui, ela me enrolava direitinho, ficava inconformado com a capacidade de planejamento dela, e quem cursa administração aqui sou eu.

Ela saiu do banheiro me perguntando onde tinha secador, depois de meia hora do momento que ela entrou no banheiro inicialmente ela saiu por definitivo, ela estava linda. Perguntei se podíamos ir, ela olhou pra mim e me impediu de sair “vai trocar essa camiseta Bruno !”, ela foi até meu quarto e voltou com uma camiseta mais ajeitada, reclamei disse que não ia trocar, com seu jeitinho especial ela me convenceu do contrário, o dia hoje não estava muito favorável pra mim, ela estava conseguindo impor todas suas vontades, estava perdido.

Se você um dia vier à São Paulo, não pode deixar de ir na Paulista, parece um pedaço de Nova York perdido no Brasil, é surreal, conforme ia avançando entre os prédios procurava o bendito restaurante, até que depois de longos cinco minutos vi que ele era do outro lado da Paulista, fiz questão de deixa-la na porta, peguei o retorno e parei em frente ao restaurante. Rapidamente ela identifica a família e vice-versa todos vieram ver quem era o moço que estava trazendo ela. Confesso que isso não estava nos planos e eu não tinha onde me esconder, cumprimentei todos, seu pai, sua mãe, sua irmã e seu irmão – o irmão me assustou um pouco, um tanto quanto largo ele – e enquanto eu subia o vidro para ir embora sou interrompido pela mãe dela.

“Fica pra comer com a gente!” Neguei o pedido, disse que ia encontrar uns amigos , eis que Ela surge interrompendo minha desculpa e diz, “É Bruno, para de dar desculpa, vem logo”, sua irmã se junta ao coro, me vi sem opção, estacionei o carro, olhei no retrovisor e refleti por um breve momento o que estava acontecendo, ainda tinha a opção de sair correndo com o carro e sumir, mas antes mesmo de eu girar a chave ela me liga e diz que estava dentro do restaurante me esperando.

Subi o elevador e respirei, minha bochecha estava vermelha de vergonha, isso é algo raro, me acalmei e a procurei pelo salão, sentei entre Ela e a irmã na fila de espera, eu já conhecia de vista a irmã dela, fazíamos academia no mesmo lugar, ela começou a falar que lia meus textos, que gostava deles, mas que não identificava Ela em nenhum deles, sua mãe se aproximou e a fofa começou a falar que eu era “mó fortinho” “as menininhas da academia babam nele mãe”, ela estava falando essas coisas só pra me deixar sem graça, a maldade corria na família. A espera parecia ser eterna, tão eterna, que a continuação vai ter que ficar pra outro texto.

Esse é o quinto texto de uma série de contos postada todo domingo chamada Nossa História (clique para ler os anteriores).

Bruno Amador – clique para me conhecer melhor

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