Morada

Fui expulsa de mim. O cérebro pediu um tempinho longe das paranoias e das obsessões. O fígado até aguenta bem a cerveja meio quente, o problema é essa vodca barata que demora pra descer e ainda irrita a garganta e o estômago no caminho. O coração só quer bater sem apanhar.

Tudo bem. Eu entendo. Eu nunca servi pra dona de casa e, nos últimos tempos, ando também sendo uma péssima anfitriã; tudo bem. Eu sou pequenina, eu me ajeito. Moro de favor em algum lugar, perambulo pela cidade até que um pulmão desavisado aceite de bom grado as golfadas cinzas do meu cigarro.

Já disse, sou pequena. Eu caibo na maioria dos lugares. Posso morar nos seus olhos e você nem vai perceber, garanto. Vou me adaptar rápido às mudanças de cores, posso me perder no caleidoscópio, mas eu encontro o caminho.

Verdes quando o sol bate.

Castanhos à noite.

Negros quando você diz adeus.

Nas suas mãos eu posso ser a corda meio desafinada do baixo, ou o botão do videogame que você tem que apertar umas duas vezes pra funcionar. Posso ser as pontas dos dedos geladas e nervosas quando você toca um rosto que não é o meu. Me acostumo a viver no seu peito apesar do frio que ele emana. Eu tenho um casaquinho, tudo bem. Não é lá essas coisas mas dá pro gasto.

Só preciso de um lugar pra ficar até as coisas se ajeitarem lá em casa. Prometo que não faço barulho e também não reclamo das visitas que considero indesejadas. Me acostumo rápido com o som descompassado do seu coração quando outros lábios, que não os meus, encontrarem o caminho da sua orelha até a nunca. Eu cantarolo alguma canção, finjo que não estou ouvindo, prometo.

Só me deixa ficar aqui.

Posso ser seus braços cruzados sobre o corpo naquele dia de inverno que você insiste que não está frio o bastante. Fico dentro do bolso, se for o caso, me ajeito ali junto com o iPod. Prometo que não tiro a música no meio.

Vou embora antes de você perceber, prometo. Antes que as minhas manias desgastem a rotina e os meus exageros passem a ser bonitos só nos textos. Antes de você se cansar e revirar os olhos, antes de me pedir pra diminuir o drama ou pra não escrever mais um sobre você.

Eu vou embora.

Procuro outra casa, outra morada por uma noite.

Outra mentira pela manhã.

Você vai trancar a porta atrás de mim e respirar aliviado, e eu prometo que não vou olhar pra trás.

Um dia eu volto pra mim, espero. O cérebro vai fazer a faxina, colocar aquele famoso “sob nova direção” escrito em letras bonitas. O coração vai terminar o curso de defesa pessoal, virar faixa preta mesmo. Aí eu volto.

Te convido pra me visitar: uma forma de agradecer a antiga hospitalidade. Coloco um suco de uva na taça de vinho e esquento aquele macarrão com bacon. Quem sabe até uma música lenta pra gente fingir que dança alguma coisa, só pra acabarmos tropeçando um sobre o outro, só pra termos uma justificativa pros nossos corpos terem colidido e nós nos acabando por nos atracar no sofá. Até deixo um quarto de hóspedes pra você. Coloco aqueles adesivos de estrelinha no teto, deixo um lugar pra emoldurar aquelas discos de vinil. Você já sabe que a guitarra alta de madrugada não me incomoda.

Se um dia você for expulso de si, prometo que te hospedo.

Por uma noite, ou por uma vida.

-G. (clique para ver mais textos da Giovanna !)

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