Talvez seja melhor assim. Você de um lado do telefone e eu do outro. Sem nos vermos, sem contato físico, sem enxugamento de lágrimas com um lencinho qualquer. Eu de cá, você de lá. A gente acorda, pergunta como foi o dia anterior e vida que segue. Não manda mais aquelas imagens toscas pra rirmos juntos, não tiramos fotos aleatórias de coisas sem importância que estamos fazendo na hora do almoço do trabalho, não reclamamos do amigo que não dá mais atenção nos fins de semana. Não falamos de planos de viagens, muito menos de planos futuros juntos. Não tocamos mais em nenhum assunto que era só nosso.
Vamos ficar no geralzão, naquilo que é genérico a toda relação, seja de amizade, seja de namoro, seja do que for. Vamos nos ver por aí, mas só se for por algum acaso da vida, que possa vir a nos colocar na mesma festa a fantasia ou no mesmo vagão do trem. Isso porque não vamos mais combinar aquela vestimenta ridícula de polícia juntos, nem vamos para o Ibirapuera no metrô, pra andar de bicicleta.
Talvez seja melhor assim, de longe, porque seus olhos eram grandes demais. Eu ficava horas tentando decifrá-los, e não ia conseguir deixar essa mania de lado. Eram como duas grandes nozes, dois planetinhas pequenos em relação ao universo, mas enormes em relação ao globo ocular humano. Transmitiam tanta coisa que é impossível que eu queira vê-los sem uma recaída que seja.
Talvez, seja a melhor hora. De noite, a hora dos avisos supérfluos de bons sonhos e também a hora das notícias ruins. Quando você pode destrinchar uma porrada de palavras e deitar a cabeça no travesseiro logo em seguida, presumindo que elas vão desaparecer na manhã seguinte. Eu não sou bom nisso, acho que ninguém é. Palavras e sentimentos não somem em uma noite. Mas, a gente continua acreditando que sim.
É, talvez não era pra gente ser, como diz o velho palavreado de término pré-determinado. Ninguém é insubstituível, existem milhares de pessoas por aí que você ainda não conhece. É isso que a gente deve repetir na nossa cabeça, como se fosse um mantra, pra que nosso coração possa se enganar um pouquinho. Eu espero que seja isso mesmo, que ele seja bem burro a ponto de se enganar com isso (mais uma vez).
Talvez essa palavra me mate antes que eu perceba. “Talvez” e toda a sua incerteza, todas as possibilidades de futuro em que não estamos inseridos um na vida do outro são um pecado para a minha existência e para a força da minha imaginação. Eu não posso desocupar minha cabeça por um minuto, que os pesadelos começam a reaparecer.
Talvez, por ironia do destino, meu único remédio seja conversar com você. A dualidade entre o sofrer e o amar dentro da mesma pessoa. Olhar suas fotos, lembrar desse sorrisinho de canto de boca e das viradas de olho que dava quando eu falava alguma besteira. Encaixar essas mesmas viradas de olho no dia em que perdi meu celular e acabei nem ligando, pois você estava ali do meu lado pra me ajudar. Eu tenho saudade de quando você era tudo o que eu sempre quis, mas além de tudo, era minha.
Talvez você foi realmente feita pra fugir. Algumas pessoas não conseguem ficar presas por muito tempo no mesmo lugar. Um amigo meu me dizia que quando somos jovens, por não saber do futuro, cometemos as maiores merdas possíveis, pois há muito tempo para consertá-las. Tempo e possibilidade, duas coisas que hoje, eu não sei se valem mais a pena para mim. Eu não sei se alguma coisa vale a pena sem você do lado.
Talvez, mas só talvez, você volte, porque disse que ia voltar. Eu não acho que as coisas funcionam assim. Não acredito que alguém possa cumprir com a palavra tão fortemente desse jeito, mas eu dou uma chance ao acaso de que você seja diferente. Até porque, foi diferente em todos os outros aspectos também. Só não esqueça de se entregar como carta para o remetente da minha casa. O endereço você já sabe, pois já enjoou de aparecer por lá. Seria uma entrega e tanto. Como nos entregamos a tantas outras coisas antigamente.
Lucas Fiorentino 
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Lucas Fiorentino