Acordou esmurrando meu braço porque sonhou que eu estava beijando uma amiga dela na sala. Demorou alguns minutos até desemburrar o rosto e riu da situação depois, mas segundo ela “eu fazia por merecer”. Conhecia boa parte dos meus segredos e meu passado me condenava um pouquinho nesses momentos. Nos conhecíamos há algum tempo, mas os caminhos que levaram ela a acordar do meu lado foram completamente imprevisíveis, assim como a minha vida depois que ela começou a aparecer mais vezes na minha semana.

Foi no hall do prédio dela que a bagunça começou. Deitada no meu colo depois de uma festa conversávamos sobre a noite, ela desabafava sobre um ex quando eu fiz algum comentário que deixou um silêncio no ar. Não vou me lembrar exatamente o que falei, mas consistia na ideia de que a gente tinha muita coisa em comum pra ficar nessa só de amizade. Ela riu meio sem jeito e naqueles 10 segundos de coragem dei começo ao caos que a minha vida se tornaria nos próximos meses.

Virou parte do meu sorriso em poucos dias e a nossa rotina era não ter rotina. Ela me chamava no meio da madrugada porque tinha chegado do bar e queria companhia pra ir no McDonalds, me mandava mensagem no meio da tarde dizendo que estava indo em casa e aparecia de cabelo preso, óculos e a bolsa pesada que levava pra aula. Ela era espontânea e dificilmente conseguia disfarçar seus sentimentos.

Mas a falta de habilidade em disfarçá-los não significa que ela os admitia. Não admite que ama até que Deus e o mundo percebam isso. Ela e afeto não combinavam tão bem quando a conheci. Dizia ter um coração duro, mas coração é o mesmo pra todo mundo. O que muda são os caminhos para chegar até ele. E o seu era uma subida de Serra, com neblina e sem muros de proteção, era preciso muita habilidade e certa paciência para chegar até ele.

Demorou até admitir ter algum sentimento por mim e quando eu meio bêbado disse o primeiro “eu te amo” ficou claro o que ela sentia depois que o “eu também”, seguido por um dos sorrisos mais bonitos que eu já vi, saiu da sua boca. Ela era intensa em absolutamente tudo o que fazia e por não saber ser meio termo acabou transbordando os meus dias. É muito clichê afirmar isso, mas os dias ao seu lado eram mais felizes.

E por nunca ser metade, não aceitava de jeito nenhum dividir a minha atenção. Não aceitava me dividir porque ela me ocupava por inteiro. Em alguns dias ocupou a minha boca, em semanas a minha mente e depois de um mês e meio, o meu celular. Me conhecia melhor que eu mesmo, sabia dos meus desejos, gostos e descobriu lugares do meu corpo que eu nem sabiam que arrepiavam.

Me tirou do chão, me jogou na cama. Nunca me deixei enganar pelo seus traços delicados.

Seu olhar era penetrante e seu toque inesquecível, antes mesmo de eu perceber ela já havia conquistado meu coração. Chega a ser covardia compará-la com alguma outra garota, ela é acima da média, ela destoa do resto, ela é única.

Sua pose de durona enganava quem a via sem conhecê-la melhor. Mas ela se desmontava com beijo na testa e flores. No caso da segunda opção, além de se desmontar ficava em silêncio, nunca soube como reagir à surpresas e essa era uma das suas maiores graça. Surtava quando eu ficava mexendo no seu cabelo “vai ficar oleoso”, surtava quando eu apertava as gordurinhas do seu braço, surtava quando eu demorava muito pra responder. Ela era assim, meio surtada, meio intensa, meio fechada, mas uma das pessoas mais maravilhosas que já conheci.

Bruno Amador – clique para me conhecer melhor. No Instagram e Snapchat: @brunoamador

Bruno Amador