Fazia alguns meses que não a via. Ela estava um pouco mais magra e com a pele mais bronzeada, me contou da viagem que fizera semanas antes pra praia e como se sentia mais tranquila depois de se afastar por uns dias da cidade. Queria fazer mil perguntas, por que ela não falou comigo por tanto tempo? Por onde ela andava? Se ainda namorava. Mas me contive em dizer “O que aconteceu?” Óbvio que coloquei o apelido dela no fim da pergunta, mas isso estragaria o anonimato dos meus textos.

Me contou que havia terminado, o cara traiu ela – agradeci mentalmente ao universo pela imbecilidade humana – e que as coisas não andavam muito bem, muita prova, muito trabalho, havia se afastado das amigas e de todo mundo, sentia falta delas, mas precisava de um tempo para si mesma, pegou suas coisas e fugiu pra praia. “Fugere Urbem” comentei, ela fez uma cara de desentendida e eu respondi que era uma expressão latina que significa “fugir da cidade”. Me deu um tapa no ombro e disse que eu era muito nerd.

Comentamos sobre os últimos meses e todos os rumos que as nossas vidas tinham tomado, ficou curiosa sobre minha entrada e saída repentinas do estágio e quis saber quando eu tinha feito a tatuagem que estampava o meu antebraço, riu quando eu comentei que tinha feito havia alguns dias e lembrou como eu era impulsivo. “Você não muda, né?”

Fiz questão de enfatizar que se não fosse a minha impulsividade a gente nunca teria se conhecido, “se eu não tivesse sentado do seu lado naquela festa não estaríamos tendo essa conversa”, ela complementou “na verdade a gente não estaria tendo essa conversa se você não tivesse me beijado no dia que eu terminei há uns dois anos”, rimos e afirmei que era verdade, lembrei comigo mesmo como ela estava irresistível aquele dia.

Havia bebido um pouco e deitou a cabeça no meu colo para descansar, entre um cafuné e outro ela levantou um pouco a cabeça e eu não pensei duas vezes para beijá-la. Às vezes minha impulsividade vinha a calhar.

Um pouco desnorteada, quis saber se eu estava no bar sozinho e eu disse que não, alguns amigos iriam chegar mais tarde. Fiz a mesma pergunta e ela disse que as amigas tinham ido pra pista de dança, quis sentar um pouco e me encontrou por acaso. “Por acaso” pensei comigo mesmo, as amigas dela que tinham me convidado para ir lá, mas mantive comigo esse pensamento. Entendi o recado que elas haviam me dado.

Vestia um vestido preto e pela expressão no seu rosto podia sentir que ela estava desanimada. Olhei meu celular e ainda era uma da manhã, puxei a sua mão e disse que ela estava muito pra baixo enquanto a arrastava para a pista de dança, comecei a mexer seus braços junto com os meus de um jeito bem ridículo, mas foi o suficiente para fazê-la rir.

Vi suas amigas ao fundo e apontei para elas, quando virou o rosto elas fingiram que não viram e assim que virou de novo, começaram a gesticular mandando eu “ir logo”. Fiquei sem graça e meio sem reação, acabei o copo que tinha na mão e pedi para ela ir ao bar comigo, disse que sim virando o fim do seu copo.

Olhando o cardápio optamos por pedir tequila, a cutuquei e disse para ela maneirar, ficou sem graça e respondeu que havia aprendido da última vez – para poupar detalhes, a última vez que ela se refere acabou comigo carregando a fofa pra cama – e resmungou pedindo para eu parar de ser tão pai. “Você não é meu pai, chato”, ela me disse, sorri ao lembrar que essa frase era dita pelo menos uma vez por semana há um bom tempo atrás.

Depois de virarmos os shots ela se apoiou em mim, a segurei pela cintura e nossos olhos se encontraram por alguns segundos. Tempo suficiente pra minha impulsividade tomar conta e eu me aproximar da sua boca. Ela me perguntou o que eu achava que estava fazendo, sorri meio de lado e respondi “exatamente o que você tá pensando”.

Ela sorriu e escutei o som de fogos de artifício explodindo por todo o mundo. Só que ainda nem era dia 31.

É que sei lá, cada dia com ela é como ano novo. Não tem como não ficar feliz.

Bruno Amador – Também estou no Instagram e no Snapchat como @brunoamador

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