Hoje eu lembrei dela e involuntariamente abri um sorriso, daqueles que você dá quando alguém faz algo inesperado, sempre foi dotada dessa capacidade particular, até porque essa costumava ser a sua única contante. Seu sorrindo. Ela inexplicavelmente sempre parecia estar feliz. Suas roupas eram coloridas, sua presença trazia um pouco mais de cor às coisas e até quando ela vinha com aquele traje “all black” conseguia dar um pouco mais de graça a tudo.

Fissurada em arte acabou incorporando seu gosto e tornou-se uma espécie de arte ambulante. Ela é arte, ela dança, ela pinta, escreve, toca, canta e te encanta. Sua cabeça voa enquanto seus olhos encaram a parede, se perde nos seus pensamentos e de vez em quando é puxada pra baixo pra lembrar que a vida pode ser um pouco amarga de vez em quando. Mas não tarda até voltar a voar.

Eu lembro da primeira vez que a vi. Ela entrou na sala errada e saiu rosa de vergonha quando viu que estava na aula de Finanças. Esse inclusive foi o assunto que eu puxei dias depois em alguma festa. Sua simpatia acabou deixando a minha timidez de lado e logo de cara conheci a característica que eu mais gostei nela, conseguia conversar sobre absolutamente tudo. De alguma maneira a gente acabou a noite tentando descobrir quem venceria a luta entre um leão e um tigre. O leão venceria, mas em troca do número dela concordei que seria o tigre.

Tinha mil e um planos e ficava apreensiva para fazer cada um deles acontecer, criava seus próprios dramas por coisas que não iriam acontecer de jeito nenhum – realmente acreditou que conseguiria juntar, em três meses, dinheiro suficiente pra passar um mês na Europa.

Ela era extremamente versátil. Ia da Festa in Gala até a micareta sem perder um pingo da sua sutileza. E como continuar a escrever sem falar do seu ritual ao acordar? Passa horas deitada tentando assimilar o que aconteceu, responde (quase) todas as mensagens do seu WhatsApp, senta ao pé da cama, estica o corpo inteiro e vai lenta até o banheiro lavar a boca. Senta de pernas cruzadas no sofá enquanto segura sua xícara de Nescau (ou Toddy) e sorria antes de falar o seu – quase sempre animado – bom dia. E eu tinha certeza que o dia, só por começar com ela, seria bom.

Pondera, demora, enrola até tomar decisões, tentar entender os lados e nunca tem 100% de certeza quando finalmente escolhe. O 1% de dúvida já a fez decidir de festas, viagens e de ver filmes de terror. “Como eu vou conseguir dormir depois?” ela falava com aquele jeito menina dela.

Acredita muito em todo mundo e por isso já se decepcionou mais vezes do que consegue contar.

Sempre cheia de perguntas, me bombardeava frequentemente com uma série delas. Parava, ficando com aquela cara de quem não entendeu direito as respostas, e só voltava a falar quando eu dizia “vai, pode perguntar”, sorria e voltava aos seus questionamentos. Falava muito, suas histórias eram complexas, tinha muita gente, muito nome e eu me perdia constantemente no meio dos seus discursos. Me perdia encarando aqueles olhos grandes e curiosos. Só voltava à realidade quando ela, com uma cara brava, estalava os dedos e perguntava “você não ouviu nada do que eu tava falando, né?”.

Não.

Então ela recomeçava a história.

Éramos opostos e nessas oposições nós nos entendemos, sempre animada, ela topava qualquer coisa, shows, festivais, baladas era só chamar, que ela ia. Já eu era mais bar, Netflix e cama, de preferência a combinação Netflix + cama. Você sempre descontraída e despreocupada com tudo eu cabeça e ela coração. Ela agitação, eu sossego. Não temos nada a ver, mas ainda bem que o amor é cego né? As nossas oposições nos equilibraram.

Hoje, eu lembrei dela e com um sorriso no rosto resolvi tirar cada uma dessas palavras de dentro do peito e passei pra cá. Você nunca entendeu de onde eu tirava tanta inspiração, então deixa eu te contar uma coisa: boa parte dela, vem de você. Espero que tenha gostado desse 🙂

Bruno Amador – clique para me conhecer melhor. No Instagram e Snapchat: @brunoamador

Bruno Amador