Tinha acabado de levar um tombo quando a gente se conheceu. A ajudei a levantar e perguntei se estava tudo bem. Pareceu bêbada demais para afirmar com certeza sua condição, então me respondeu com um sorriso. Me contou que estava perdida porque as amigas não viram ela cair e continuaram andando, ofereci ajuda, aceita com o mesmo sorriso anterior. Nunca foi muito tímida e em poucos passos começamos a conversar e nos conhecer melhor.

Fazia cursinho, medicina, psicologia, pedagogia, não lembro bem o que ela me disse no dia, mas tinha a ver com gente (tinha uma necessidade bizarra de cuidar das pessoas). Ela insiste em me falar que é, e sempre foi medicina, mas eu gosto de contrariar só pra deixá-la irritada. Falei um pouco de mim e era incrível como ela dava atenção às coisas que saiam da mimha boca. Muita gente não entende que o ato de conversar consiste em falar e ouvir, ela não era um desses casos.

Saiu correndo quando encontrou as amigas e as abraçou como se estivesse fora por meses, tinha essa característica em si, valorizava a fidelidade como pouquíssimas coisas nesse mundo e retribuía com toda a intensidade que poderia ter. Sempre 80, nunca 8, se dedicava às coisas que gostava e por isso foi incrível cada momento ao seu lado depois que percebi que ela sentia algo por mim, antes também.

Mas o processo foi longo.

Caminho complicado a rota até o seu coração, a começar que ela nunca gostou muito de melosidade e um “eu te odeio” acabou virando mensagem de afeto depois de um tempo. Otário, chato, insuportável eram alguns dos diversos apelidos que me deu durante o tempo em que convivemos.

A chamei pra jantar três vezes, até finalmente conseguir convencê-la que eu era digno de uma chance. De última horas mudamos o jantar pra um bar e em 20 minutos eu me vi numa mesa lotada com os nossos amigos – tínhamos alguns em comum. Incrível como ela conseguiu fazer um programa à dois virar um evento. Sabia argumentar e aos poucos moldou o meu “nem ferrando” pra um “vou ver se o pessoal anima”.

Por sinal tudo com ela era uma espécie de evento, o tipo de coisa que eu contava os dias pra acontecer, ao seu lado eu deixava de lado qualquer máscara que poderia estar usando e começava a ser eu mesmo. Meio grosso, meio chato, meio mal humorado, mas eu. Éramos bem parecidos, um “grosso fofo” como ela gostava de falar. Era complexo se relacionar com ela, gostava da proximidade, mas precisava ter o seu espaço. Gostava da distância, mas nunca negou um carinho. Vivia flutuando entre esses extremos.

Não leva desaforo pra casa e leva um pouquinho de bagunca aonde vai. Discutiu com uma mulher que lavava a rua com mangueira, se revoltou quando um casal não deixou a velhinha usar a fila preferencial e só faltou voar no meu pescoço quando viu que eu esperava ela numa vaga de deficiente. Não se conforma com as injustiças do mundo e contribui da sua maneira para minimiza-las o máximo possível.

Muito parceira, pra absolutamente qualquer coisa. Me acompanhava no cinema, na balada, no jantar, na cama, se eu fosse na padaria ela perguntava se queria que fosse junti. Já a vi sair correndo de casa pra ajudar uma amiga em crise depressiva, me tirou da cama quando seu melhor amigo terminou o namoro de anos e ficou sentada no sofá até suas amigas confirmarem que cuidaram bem de uma delas que passou mal.

Ela nunca foi de pedir por atenção. Só mandava mil mensagens se eu demorasse pra responder. Cada mensagem com uma ameaça diferente – você ficaria surpreso com a criatividade dela – e eu acho que esse era o jeitinho dela de demonstrar carinho. De mostrar que os dias dela ficavam um pouquinho mais chatos, sem eu por perto.

Eu sei, é meio estranho. Mas ela é assim, com esse jeitinho meio diferente ela conquista o teu coração. E não costuma ser do dia pra noite, ela não é arrebatadora, nunca entrega tudo de uma vez e nem por isso deixa de ser inteira. Sempre 80, nunca 8, lembra?

Ela é uma constante. Seus beijos, seus toques, ela em si. Melhoravam a cada vez que nos víamos. Deixando em mim um anseio maluco pelo próximo encontro.

Ela é de capricórnio, sempre tem alguma carta na manga e isso é só uma das coisas que a faz ser tão especial. Se quiser saber quais são as outras, é melhor conhecê-la. Vai sem medo, desde que chegue com um sorisso no rosto, será bem vindo. E não se preocupa em abrir o coração. Ela guarda seus segredos como ninguém.

Bruno Amador