Deixa ele ir. Essa história é manjada. Você já ouviu, viu, leu e viveu ela.
Essa história você já sabe de trás pra frente. E sempre começa igual, ele vem com promessas e mais promessas, “vou melhorar”,” não sou mais aquele cara”,” você vai ver como mudei”, um coração maltratado vê refúgio nessas palavras, como um nômade cansado de perambular por aí, decide voltar a ter um endereço fixo, decide se proteger da tempestade que o cerca nas últimas semanas.
O mundo é chato demais, quando vivido sozinho. E é complicado demais confiar em pessoas novas algo tão precioso quanto o teu coração. Ao menos, é isso que você pensa.
Ao voltar, as coisas parecem diferentes. O aroma de café domina o ambiente e você sempre gostou desse cheiro. Tudo parece mais colorido, como se o apartamento tivesse passado por reformas e agora estivesse a seu gosto. As palavras, antes de ódio, trazem doçura, adocicando seu lábios que pareciam tão amargos esses dias. O aconchego do colo dele lembra o da sua mãe e aquele cafuné parece ser o caminho para a paz mundial. Meio embobecida, você pensa que se aqueles líderes islâmicos malucos recebessem um cafuné desse uma vez por dia durante uma semana, bancariam a reconstrução das Torres Gêmeas.
E os programas mudaram, o sofá dá lugar ao parque, o iFood vira restaurantes e as viagens que nunca saíram do papel, começam a acontecer. Ele te leva pra praia, para de ter ciúmes das tuas saídas e pela primeira vez em muito tempo você consegue estar com as suas amigas sem se preocupar com brigas e discussões idiotas. O mundo parece outro e o seu coração nunca batera tão seguro.
Mas logo dá pra notar que as mudanças não foram tão bem feitas assim.
Algumas discussões bobas começam a pipocar de novo, você bebeu demais, você não quis transar, você demora muito pra se arrumar, você pegou no sono no meio de conversa, você, você, você. A culpa de tudo volta a ser tua.
E a culpa não é tua.
As paredes começam a descascar revelando as antigas falhas na estrutura da casa. Aquele cheiro de café sumiu, deu lugar ao antigo e já comum cheiro de naftalina que tenta conter todo o mofo que insiste em tomar conta da construção antiga. As luzes já não iluminam mais como antes, talvez seja porque comece a escurecer e o Sol, que antes clareava a casa, resolveu iluminar outras vidas.
A noite parece eterna. O colo de mãe vira uma cama de cimento e a fechadura da porta emperrou. As palavras doces voltam ao estado de amargura e seu lábio além de amargo, começa a ficar seco. O cafuné não parece ter nenhuma utilidade a não ser dar nós no seu cabelo e Deus como você odeia que deixem seu cabelo embaraçado.
Aos poucos você nota que o amor virou comodidade e o que antes era maravilhoso, agora é um pé no saco.
Então garota, coragem.
Deixa ele ir, ele nem era tão legal assim. Admite, admite que você só quer um abrigo temporário, pelo menos agora. Um cara que até apareça durante a semana, mas que seja uma companhia pra sexta, sábado e aqueles dias chuvosos que coberta e filme parecem o Santo Graal do conforto.
Admite que você não quer mais aquela coisa antiga. Deixa ele ir. A casa dele você já conhece, nem precisa mais de ajuda pra se orientar no escuro. Vem conhecer um pouco da minha, vem se perder nela, porque a graça é não saber o caminho pra cozinha… você sabe que à dois o escuro é muito mais legal. Caso não queira subir, sem problemas. Nunca tive pressa com as coisas e embora a tempestade seja dura, fica mais fácil enfrentá-la quando temos alguém ao lado. Beijos na chuva costumam ser os melhores.
E moça, não se preocupa com esse tempo fechado não. Depois da chuva, vem o Sol. Tenha certeza que estarei por perto, pra poder te ver de biquíni.
Bruno Amador