Ela é de câncer. Foi isso que descobri essa semana enquanto conversávamos. E pode até estar um pouco fora da minha alçada afirmar isso, mas os horóscopos não são tão certos assim sobre ela.

Logo quando a conheci, senti a sua simpatia. Um pouco tímida ela sorria incessantemente enquanto conversávamos e não soube bem se era porque eu sou muito engraçado, ou se ela não entendia os sons que eu emitia bêbado. Torcendo para que fosse a 1ª hipótese – não era – pedi seu celular a uma amiga um pouco depois de acordar no dia seguinte.

A principal e mais marcante característica que eu tive a felicidade de conhecer nela foi a sua capacidade, fora do comum, de arrancar um sorriso. Conseguia me encantar ao mesmo tempo que era engraçada com o seu jeito meio estabanado de ser. Tentava ser cuidadosa nos seus movimentos, mas não foi uma, nem duas vezes que derrubou seu copo no chão em casa. Comprei uma mamadeira para quando fizéssemos esquenta aqui. Ela amou.

Amava receber presentes – quem não? – mas não qualquer presente. Ele tinha que ter um significado. Sempre me dizia que tão importante quanto o presente, era o bilhetinho que o acompanhava. E eu acho que vocês podem imaginar o nível dos meus bilhetinhos, rs.

Isso me fez lembrar outro ponto que eu amo nela. Ao contrário de tantas outras, nunca enjoou de ler as coisas que eu escrevo, não por gostar de ter uma rotina de toda semana receber algum texto no Whats. Mas por admirar as pessoas que se esforçavam para conseguir algo. Imagino que o meu esforço para mantê-la por perto a deixava feliz. O tanto como tê-la por perto me deixava.

E a imaginação virava certeza a cada vez que sentia os seus lábios encostarem nos meus. Podia sentir o calor que ela emanava a cada beijo que me dava. Diferente do que Deus e o mundo nos dizem, ela não era grudenta ou – muito – dramática, tinha seus momentos como todo ser humano, mas nada exagerado, sempre dentro do limite do aceitável.

Inclusive, chegava a ser um pouco fria de vez em quando. Não por querer, mas provavelmente porque sua cabeça era dividida entre Terra e algum outro planeta. E às vezes ela acabava ficando por lá algumas horas até se tocar que o mundo daqui precisa da sua atenção também. Atenção. Isso é o que lhe falta muitas vezes, se distraía na escola com o barulho do ar condicionado e ficava pensando em como era possível aquele negócio fazer o calor infernal virar um frio do cacete.

Repara muito nos detalhes e quase voou em mim – olha o drama – quando apareci com um vermelho no pescoço na casa dela. “A noite foi animada né?” Falou com aquela voz meio psicopata. Sossegou depois que provei que eu tinha acabado de fazer a barba e aquilo com toda a certeza era uma reação alérgica, acabou me chamando de tonto quando fiz um charminho e disse que tinha me arrumado só pra ela e tinha isso como retribuição.

Não fazia seu tipo ser ciumenta ou muito possessiva, sempre foi uma menina muito independente e deixava claríssimo que nós dois podíamos fazer o que bem entendesse desde que fossemos sinceros um com o outro. E eu, como não sou burro, acabei entendendo que o melhor lugar que eu poderia estar era ao seu lado.

Eu percebi isso quando a nossa amizade ganhou aspas. Tinha chamado o pessoal pra vir aqui em casa e depois de algumas taças de vinho e copos de cerveja acabamos sentados no sofá vendo filme. O destino acabou nos colocando lado a lado no sofá e naquele ato “tô bêbado demais pra entender o que tô fazendo” acabei pegando na sua mão, como resposta ela olhou pra mim e sorriu meio sem jeito. De pouco em pouco nossos rostos foram se aproximando e eu nem preciso falar o que aconteceu né?

De vez em quando eu realizo a sorte que era tê-la deitada comigo na cama. Me lembro, sempre com um sorriso no rosto, das alternâncias que tínhamos entre carinho e grosseria, começando alguma conversa com um “eu vou te matar” e acabando com “você é linda”. Era sempre delicioso quando ela tentava ficar putinha e eu desfazia aquela cara emburrada, às vezes pelo pescoço, às vezes pela boca e, quando eu queria apelar, acabava usando as palavras.

Ela é de câncer e passa longe de toda a fragilidade e sentimentalismo exacerbado que todo mundo julga ser inerente ao signo. Acho que por isso resolvi escrever esse texto, assim como ela sempre gostei de contrariar os padrões e mostrar que as coisas são melhores quando são inesperadas.

Além disso, ela merece – e muito – ser eternizada por alguém. Como sou um pouco possessivo, resolvi tomá-la – ao menos dentro desses parágrafos – pra mim. Espero que você não se importe, sempre te tratei tão bem, né?

PS.: O final era pra arrancar esse sorriso meio bobo aí mesmo.

Bruno Amador – clique para me conhecer melhor. No Instagram e Snapchat: @brunoamador

Bruno Amador