Usava um vestido preto na noite que resolvi escrever esse texto. O casaco vermelho a protegia do frio, esquentava o seu tronco, enquanto o vento atacava suas pernas. Passou rápido pela fila e evitava a qualquer custo o fumódromo. Os seus olhos traziam um pouco de brilho à escuridão do ambiente e o seu sorriso dava mais graça às coisas ao seu redor. Ou era eu que tinha bebido demais e não conseguia enxergar as coisas muito bem.

Ela é de gêmeos e por isso é difícil conquistá-la. Ela é duas. Enquanto a sua primeira personalidade não nega um carinho, gosta de um beijo, de um chamego, gosta de fazer umas idiotices. A segunda se mantém centrada, pensa antes de agir e raramente cede. Deu fora em todos os meus amigos com a delicadeza que só ela poderia ter. Não era algo doído, era sutil, tão sutil quantos os traços da sua maquiagem. Desconversava aos poucos e forçava uma mudança no assunto do papo. Ela é boa de conversar e às vezes sua simpatia pode ser interpretada errada.

Por ser duas, não é de beber muito. Precisa manter seu lado mais carente e porra louca escondido para quem merecê-lo, mantém seus segredos a sete chaves e o caminho é longo até chegar neles. Não ama fácil, não odeia fácil, mas se alguma das duas coisas acontecerem. Serão duradouras.

Meio desligada, ela frequentemente olha ao redor e se pergunta “que que eu tô fazendo aqui?”. É apegada a coisas que não deveria ser. Ama os personagens das séries que assiste e fica puta quando as coisas começam a desandar. Realmente puta. Já brigou comigo depois que o Chuck deixou a Blair ir embora. E a nossa discussão eterna é se o Ross errou com a Rachel (we were on a break!), eu defendo ele, ela tenta me matar.

Ela é duas e por isso requer o dobro da tua atenção.

Tingiu seu cabelo antes de sairmos pra jantar e ficou meio calada até eu comentar sobre os fios novos. Ela é eterna mudança por nunca se contentar com o presente, sempre quer mais, ocupa os espaços que lhe oferecem e depois de conquistar a tua mão, já parte logo pro corpo inteiro. Se expande sem você notar e é delicioso ser dominado por cada aspecto dela.

É inevitável afirmar que ela me envolveu nas suas dualidades. Na preguiça depois do almoço e hiperatividade às 11 da noite querendo sair pra algum lugar. Na dieta a semana inteira e no ataque às minhas batatas no final de semana. Nas vontades repentinas de não desgrudar de mim e nos dias que ela parecia esquecer por algumas horas da minha presença. É bom porque dá espaço pra coisas novas acontecerem, dificilmente tínhamos uma rotina.

Não era muito possessiva, mas um pouco ciumenta. Ela demanda muita atenção, lembra? Pegava firme na minha mão quando passávamos por algum lugar com muitas garotas, como se dissesse à elas “nem olhem que esse aqui tem dona”. Sempre aberta à sugestões, ouvia tudo que eu falava. E acabava me convencendo do contrário quase sempre. Tem seu jeito especial de discutir.

Ela é meio possessiva e nunca aceitou dividir atenção. Porque embora ela pareça duas, ela nunca será a tua segunda. Ela é a primeira. Sempre.

Bruno Amador