No início é raso, calmo e acolhedor, te faz querer sair correndo e entrar logo, mas por experiência própria você vai com cautela. Nunca se sabe o que haverá pela frente, as quedas nos buracos provocados por ondas passadas ainda te marcam, certa vez você quase se afogou. Então você entra, calma e com atenção aonde pisa. Desvia de algumas pedras no chão e pisa sem querer em algumas conchas, às vezes essas conchas machucam, mas nada que te impeça de ir além, pequenas feridas são normais. O mar as cura.

Dizem que quando a água chega ao seu joelho, você já pode ser arrastada pela correnteza, então quando ela começa a chegar na sua canela você para e analisa o que vê a sua frente, você nunca foi de entrar de cabeça nas coisas.

E aí, as ondas começam. O mar está sempre querendo nos expulsar, vive arremessando contra nós ondas gigantescas e mesmo assim, nós insistimos a entrar nele. Acreditamos que sabemos como lidar com esse impecílio, algumas pessoas mergulham, outras pulam, outras passam por cima com uma prancha, sempre damos nosso jeito de seguir em frente, se o mar estiver muito agitado, vamos de mãos dadas com alguém nos aprofundar um pouco mais. Então me dá a mão e vem comigo. Essas ondas são marolas perto das tempestades pelas quais já passei.

Andando, agora acompanhada, você segue cautelosa. As ondas continuam tentando te empurrar para fora, a água já está na sua barriga e seu cabelo foi atingido por alguns respingos. Estamos nos aproximando do trecho mais turbulento e perigoso, logo à nossa frente é onde as ondas quebram. Ali tem um buraco razoavelmente grande, que provavelmente te desencorajará a ir em frente. Ciente disto, seguro forte a sua mão, não quero que você vá embora, não agora.

Ao entrar no buraco a água chega ao seu pescoço e as ondas te jogam para baixo. Você é obrigada a mergulhar e se assusta com tamanha violência do mar, se solta da minha mão e recua um pouco. Eu volto para te buscar, mas você insiste, que não vai voltar e eu sei que quando você põe algo na cabeça, é preciso de calma e paciência para te convencê-lá do contrário. Eu busco alguns argumentos para te encorajar a ir mais fundo, mas você insistia “esse é o nosso limite”.

Então você começa a voltar para a areia, para a terra firme, no meio do caminho, em um ato de desespero, pego a sua mão e digo, “vem comigo, você vai gostar”. Meio desconfiada você pensa nas possibilidades, você tem medo do (a)mar e está certa em ter, se não tivesse, seria burrice. Já se machucou tantas vezes dentro dele, não quer se machucar de novo, não quer te que voltar para a terra firme nadando contra a corrente, isso cansa.

Mas eu tento argumentar. Te falo que você irá se arrepender em não ir além. Quantas vezes você já deu pra trás em alguma oportunidade que parecia ser sensacional, apenas por medo, pela chance de voltar com algumas feridas, feridas curam, oportunidades, não voltam. É melhor se arrepender de ter feito do que nunca ter experimentado. Você resolve enfrentar seu medo, algo que com certeza é mais fácil quando feito à dois. Segura a minha mão, prende o cabelo e estufa o peito tentando mostrar um ar de segurança, mas o silêncio entre nós dois revela a tensão no ar.

Então reiniciamos a caminhada, dessa vez você está um pouco mais lenta, mas eu não tenho pressa, “temos todo o tempo do mundo” como diria Renato Russo e apenas pelo fato de estar ali com você, já valia a pena. Conforme nos aproximamos da onde as ondas quebram, seguro mais firme sua mão. Vejo nos seus olhos o medo, esses olhos grandes provavelmente são reflexo da igual grandeza do seu coração. Mergulhamos, dessa vez por opção própria, não forçados pelas ondas, passamos pelo trecho mais complicado do mar, você imerge de olhos fechados, sem saber o que poderia ter na sua frente.

Ao emergir, seus olhos brilham, eles vêem uma imensidão azul de águas calmas, você sorri, perplexa com a beleza do que havia atrás das parte mais caudalosa do mar. E depois de muito tempo em silêncio, resolve voltar a falar. Baixinho no meu ouvido, me agradece. Conclui que obstáculos são feito para serem quebrados. Se sente meio orgulhosa por ter enfrentado seus medos, meio aliviada por finalmente ter um pouco de calmaria, o mar já não assusta mais. Agora, ele te acolhe, te permite boiar, te permite ir e voltar sem grandes problemas. Vai chegar uma hora que talvez você canse um pouco, talvez tenha que ir pro raso às vezes ou pode até resolver ir mais fundo, desbravar novos lugares. Mas agora você já sabe, sempre que esse (a)mar te assustar, segura a minha mão. Mergulharemos juntos. Confia em mim e vem.

Você disse que adora analogias com o mar, meio que fiz um texto inteiro, só pra você*.

*Mais um.

Bruno Amador