E de como você sorria quando te conheci. Você dizia que odiava o seu sorriso por causa do aparelho, mas eu sempre te deixava sem graça dizendo que te achava linda de qualquer jeito. Mas admito, você ficou bem melhor sem aquele monte de metal na boca. Lembra de como começamos a conversar pelo WhatsApp? Você brincava dizendo que não me suportava, mas não ficava um minuto sem me chamar. E de quando eu te chamei pra sair e você negou? Disse que estava com outro cara e que não queria algo naquele momento. Aposto que você achou que eu sumiria depois daquilo. Você lembra que eu não sumi né?

Esfriamos um pouco, admito, não queria atrapalhar e você não queria ser atrapalhada, mas os conselhos e desabafos semanais não podiam faltar, lembro de quando te aconselhei usar uma lingerie preta pra surpreender o cara e você me mandou à merda. Lembro que fiquei te imaginando com a bendita lingerie a semana toda, mas isso você não deve lembrar, não lembro de ter te falado. Pelo menos não sóbrio. Lembro que você me enchia o saco por causa do meu sotaque e das gaguejadas que saiam esporadicamente.

Lembro do dia que você terminou e do porre que tomamos juntos, eu porque gostava, você porque precisava, infelizmente minhas lembranças dessa noite se encerram com você no meu colo, não lembramos de muita coisa, ficamos apenas com as histórias que as tuas amigas contaram depois. E a nossa primeira vez juntos, você lembra? Te chamei para sair e você finalmente aceitou, mas teria que ser longe dos holofotes, eu tinha um caso e você não queria atenção, como a gente era idiota. Fomos à um bar no Itaim e lembro direitinho de como você estava linda naquele vestido preto. Sinto frio na barriga só de lembrar, falo sério.

Você perguntou se eu queria relembrar a “noite do porre” – como ficou conhecido o acontecido – e desta vez quem ficou sem graça fui eu, coisa rara, como você. Lembro do sorriso que você deu quando eu te beijei e da mordida que você me deu no lábio quando eu parei para respirar, lembro que tocava Wasted ao fundo e você cantava, “I like us better when we’re wasted”, perguntei se as nossas roupas iriam coming off mais tarde e você nem respondeu, só fez uma cara de deboche mandando eu cair na real. Lembro que te deixei em casa e fiquei parado te observando subir a escadaria do prédio. Você deixou o seu RG no carro e eu tenho a foto dele no celular até hoje, você de aparelho e óculos fundo de garrafa pode valer ouro daqui alguns anos.

Lembro de cada vez que saímos, de quando ficamos tão bêbados que acabamos nos beijando na frente de todo mundo, confirmando o que já era fato. De quando você disse aos seus pais que iria dormir na sua amiga, mas eles nem imaginavam que eu era o irmão dela. Das vezes que por falta de lugares para nos esconder nos metíamos nas escadas de emergência dos prédios, nas cozinhas dos salões e – quando eu finalmente ganhei um – no banco de trás do meu carro. E como é gostoso lembrar disso.

Lembro da festa in gala que fomos e de você tentando ajeitar a minha gravata, de como eu fiquei ridículo com ela toda torta e de tentar de ensinar a dar o nó, lembro de você desistindo de aprender e me dando seus saltos pedindo para irmos embora logo.

Lembro dos apelidos, da primeira vez que dormimos juntos, da luta para dividir a cama de solteiro, de acordar sem cobertores no meio da noite, do meu braço ficar dormente e de como foi estranho não ter você na cama na noite seguinte. Lembro dos teus desejos no meio da madrugada, dos sanduíches com peito de peru, das discussões biscoito x bolacha e até das mais sérias, sinal x farol. Semáforo nunca. Lembro dos planos para o futuro e das risadas que dávamos do passado, lembro que construímos tanta coisa em tão pouco tempo que nos assustamos com a velocidade que íamos. Lembro que demos as mãos e fomos juntos.

Lembro de cada palavra que te escrevi, todos esses “ela é”, baixinha, serena, caos, câncer, sagitário, áries o horóscopo inteiro. Como diria John Mayer: “você é 21 garotas em uma”. Lembro da primeira vez que você leu um texto meu na minha frente e de cada reação tua, a vermelhidão no rosto e uma lágrima caindo, do abraço apertado e de cada beijo que se seguiu. Os beijos são impossíveis de esquecer.

Lembro dos filmes de terror, de como você se escondia entre os meus braços e tampava o rosto quando ia tomar susto, das maratonas de filmes que tentávamos fazer sempre interrompidas por algumas mãos bobas sob as cobertas, lembro de você pedindo para eu parar enquanto arranhava a minha coxa, completamente contrária. Lembro de como você me deixava doido, de amor, de bebida, por você. Com você eu podia ser eu mesmo.

Lembro como depois de dois meses finalmente avançamos na música e eu pude tirar da imaginação aquela lingerie preta, te chamei para vir aqui e inventei de fazer jantar, lembro de tirar tua blusa na cozinha e tua calça no corredor, te de carregar no colo para a cama, lembro da pausa pra água, das tentativas falhas de dormir, do Sol nascendo e de nós dois envoltos no edredom sentados na varanda. Lembro de cada detalhe do teu corpo, da pinta na coxa, das sardas nos ombros, da cicatriz no cotovelo e da mordida que tinha te dado no bumbum. Desculpa precisei falar.

Lembro de como você sorria quando eu ia te buscar no colégio e mais tarde quando eu te buscava na faculdade, lembro de você reclamar que eu sempre pedia hambúrguer no almoço e ameaçar me largar se eu ficasse gordo, lembro de ter que te acordar para você ir à academia e de como eu ficava te esperando para você não ir sozinha pra casa. Lembro dos teus jeitos, do seu andar meio torto e do teu nariz entupido, do teu riso gostoso e de você cantando funk e sertanejo dentro do carro.

Lembro da noite que te carreguei até a cama e da que eu apaguei no seu colo. Lembro de te ver começando a beber cerveja e fazendo cara amarga pro vinho, da tua paixão pelo espumante e da taça quebrada depois de esbarrarmos com o cobertor nela. Lembro da piscina no meio da madrugada e da corrida de volta para casa atrás das toalhas. Lembro do banho quente e do cheiro do seu xampu, de me perder em meio a tantos cremes e de você reclamando que a minha barba estava pinicando. Não lembro de ter barba.

Lembro de te ensinar a jogar poker, só para adicionar um “strip” mais tarde, lembro de tentar te ensinar a jogar videogame e de você toda feliz quando te deixei marcar um gol, de você corrigindo o meu inglês e achando erros ortográficos nos meus textos, de você perguntando se aquela frase foi pra você e da sua reação quando eu dizia que todas as frases eram.

Lembro de quando você foi viajar e eu finalmente me toquei, eu te amava. Lembro que te disse isso no cinema enquanto acariciava seu cabelo e de como você não conseguiu conter o sorriso. Ainda sorrio quando lembro disso. Lembro de quando você estava doente e eu te chamei para vir aqui, você chegou com uma mochila e começou a ocupar uma gaveta, perguntei o que você estava fazendo e você respondeu que estava cansada de ter que levar mochila para cima e pra baixo semana sim e semana não. A mochila virou uma bolsa porque você não vivia sem maquiagem.

Lembro da nossa primeira viagem juntos e de como o apartamento virou um caos, a louça acumulava e as garrafas de cerveja e vodka também, tomamos multa por barulho e broncas por termos usado o elevador social imundos de areia. Lembro de te derrubar no mar no meio da madrugada e de ter que fugir de ti depois, não lembrei do quão rápida você era e fui derrubado.

Lembro da primeira, da segunda, da terceira e da última briga que tivemos. Lembro das gavetas sendo esvaziadas, de ter que buscar na tua portaria minhas roupas. Lembro do porre que tomei porque dessa vez eu precisava e de como eu desejei você de volta. Lembro das noites em claro e das garotas que te sucederam, lembro de você. Lembro que quis te esquecer, mas as memórias boas a gente guarda.

Lembro que você odiava quando meus textos acabavam tristes e que eu dizia para você não se preocupar, porque todas as nossas histórias teriam finais felizes. Eu sempre cumpro minhas promessas, essa história ainda não acabou.

E você, lembra?

Bruno Amador – clique para me conhecer melhor

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