Ela anda por aí, com o sorriso no rosto, da vida que seguiu, das feridas que cicatrizaram e a calma de quem finalmente saiu da “estrada de terra”. Mas e aquilo que insiste em ficar? E as coisas que o tempo faz superar, mas não deletar. E as palavras? Ah…as palavras, uma arma. Arma branca, arma de raiva, arma forte. A ferida que seca mas que basta esbarrar em um pensamento, pra que ela volte, trazendo o gostinho daquele tempo que ninguém quer mais.

Ela já ouviu sobre seu corpo, sobre como o usa e como deixa de usar. Perdeu sua propriedade, pera aí…propriedade? E foi isso que dele foi feito. Foi comparado, rebaixado, desvalorizado com termos que até hoje, são dificeis de lembrar. Isso porque, a primeira palavra que veio a mente foi: insuficiente.

Já ouviu sobre sua personalidade, seu jeito de ser. Muito assim, muito assado…muito pesado. Já foi ordenada a engolir as lágrimas das suas angústias e ignorada em momentos de desespero. Suas paixões já foram a irritação alheia, a famosa “encheção de saco”. Seus sonhos foram deixados de lado, para dar ouvidos aos sonhos do outros.

Ela também já deixou de ouvir. Um agradecimento, um carinho, uma atenção. Deixou de ouvir uma pergunta de preocupação para preocupar-se com tudo menos ela. E adivinha? Dessa vez, a palavra não foi insuficiente, mas sim, o conjunto de algumas delas que formam a frase :”Você faz demais”.

Palavras de culpa, que praticamente invocam um tribunal para apontar tudo que ela já fez de “errado” (ênfase nas aspas). Palavras que a fizeram sentir inútil, inábil, incapaz. Palavras que, só faltavam afirmar sua responsabilidade pelo ataque de 11 de setembro, o aquecimento global, o trânsito e por aí vai. Como se ela já não carregasse o mundo nas costas.

As palavras a fizeram ver. Ver-se como uma decepção, fracasso. Fizeram com que ela visse o poço, a famosa fossa, “Bleeding Love” no máximo volume. Trouxeram dor, o aperto no peito, o desespero de fazer (ou pelo menos achar que estava fazendo) alguém infeliz. Destruiram seu chão, seu rumo, seu corpo, sua vida.

E às vezes, arrepia até o último pelo lembrar de todas as facadas, os usos e abusos. Tudo volta ao pensamento, em um turbilhão de emoções. Ela se sente vulnerável, exposta, um verdadeiro saco de pancada. Que carrega em si não todos os sonhos do mundo, Pessoa, mas as infelicidades dele. A culpa.

Mas as mesmas palavras transformaram aquele patinho em fênix. Que renasceu de todas aquelas cinzas, de palavras queimadas em odio, desconsideração. As mesmas palavras, fizeram contestar: por que aceitar? Por que calar o que o coração grita: tá tudo errado! Por que se deixar convencer? Por que não lutar?

Levam a entender que a desvalorização foi inveja, a falta de carinho, na verdade, falta de amor e que todo o ataque, pura maldade. Fizeram-na mais resistente, calejada e preparada para nunca mais passar por isso. Implantaram a coragem que leva para brigar, e não compactuar com nenhuma força, senão a que morava dentro dela.

As mesmas a ajudaram a vencer a luta dura que é, nos momentos em que as lembranças obscuras a tentam convencer do contrário, encarar o espelho e reconhecer: erradas são as palavras e não ela.

Carolina Ferraz