Sua voz entrava suave nos meus ouvidos e se misturava aos meus sonhos enquanto ela tentava me acordar, senti suas mãos frias por baixo da minha blusa e finalmente me toquei de que a voz vinha de alguém que estava ao meu lado, não dentro da minha cabeça, virei meu rosto e achei que ainda estava sonhando, tive que piscar duas vezes – giraria meu peão se tivesse algum – e finalmente me toquei que já havia passado a hora de acordar, ela já estava pronta para o almoço enquanto eu buscava forças para sair da cama, estávamos em Campos do Jordão e se você não conhece a cidade saiba que no inverno ela é fria pra cacete, fazia 5 graus enquanto eu rolava para fora da cama.
Ela jogou em mim uma toalha que foi recebida em tom de deboche, “não irei tomar banho nem que você me pague” ela me encarou e disse que não me pagaria nada, porém como ela disse “vou me lembrar disso mais tarde”, senti a ameaça. Esperei o chuveiro esquentar enquanto escolhia alguma roupa, fui rápido para sair do chuveiro, mais rápido ainda para me secar, imaginei que iria pegar pneumonia se demorasse muito. Fomos para o centro da cidade encontrar as amigas dela, fiquei inconformado com  a beleza delas, era como se cada uma representasse uma parcela da beleza da Gabi. Saiba que nessa frase garanti minha estadia no quarto com aquecedor e cobertor por mais uma noite.
Perguntou o que eu queria e acabamos em um bife a parmegiana, pedimos a porção para dois, eu comeria por um e meio e ela se contentaria com o meio que sobrasse como sempre, não era de comer muito nas horas que deveria, gostava era de gastar na sobremesa após eu estar satisfeito e louco para ir embora, a tática era válida, pagaria qualquer coisa para me sentar em um sofá depois de comer muito, um petit gateau sairia fácil do meu bolso. Ela pediu a sobremesa, paguei, ela comeu e fomos embora.

18:30 sairá o texto "Gabriela" no blog 😉

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No apartamento começamos a procurar algo para fazer, abri meu Facebook e todos os eventos aqui por perto eram caros demais, queria mais do que tudo ficar no sofá, dei a ideia de irmos no supermercado comprar bebida e ficarmos por aqui, ela acatou. Desde que eu fizesse caipirinhas, kiwi foi a fruta pedida, a mais chata de fazer, uma fruta áspera por fora e deliciosa quando misturada com vodka, poderia se chamar Gabi. Aceitei e fomos para o centro da cidade na busca de algum Pão de Açúcar.
Supliquei para que ela descascasse o bendito kiwi, mas ela disse que não pois estava entrando no banho, imediatamente saiu correndo em direção ao banheiro e trancou a porta, pensei em desligar o aquecedor quando a água ligasse, mas após uma breve reflexão desisti da ideia, lembrei mais tarde seria eu no chuveiro. Encontrou a cozinha toda bagunçada quando voltou, riu de mim ao me ver sentado na mesa descascando o último kiwi e disse para eu ir logo pro banho enquanto ela arrumava a zona.
Quando voltei a cozinha estava brilhando e ela sentada no sofá procurando algum canal na televisão, procurei algo para amassar as frutas e começar a fazer as bebidas, tive que me contentar com um copo de plástico e uma colher, entornei a vodka no copo e preparei a caipirinha, fiz uma, duas, na terceira ela começou a ficar meio caída. A Gabriela nunca foi muito forte para bebidas, por isso achei melhor diminuir o ritmo, estava na quarta quando ela pediu a minha companhia na sala, disse para ela vir para a cozinha, concordou e se sentou em cima da bancada.
Me observava fazer enquanto me perguntava um monte de coisa, queria saber onde eu havia aprendido, respondi que o Google era bem útil nessas coisas, me chamou de grosso e despejou o gelo na pia, ergueu o copo em minha direção pedindo mais, olhei para cima e me perdi por um breve momento nos seus olhos castanhos, foram alguns segundos que a fizeram me cutucar e falar “acorda, eu quero mais”, servi um pouco e virei o resto do copo para evitar o pior, ela ficou indignada com a minha ação e imediatamente soltou o copo e pulou em mim num ato de repúdio.
Tentava me bater enquanto eu me defendia, fui caminhando com ela pela casa até chegar no sofá, a arremessei sob as almofadas e quando eu tentei voltar para a cozinha fui puxado para trás, caí ao lado dela provocando uma crise de risos, visivelmente alterada virou para mim, alinhando seu rosto com o meu, novamente me perdi naqueles olhos, ela notou e me cutucou perguntando “Por que você olha tanto pro meu olho? Seu estranho” sorri e meio sem jeito respondi “eu vejo meu futuro dentro deles”. Seu nome é Gabriela. Carinhosamente chamado por mim de Gabi.
Bruno Amador