Ela tem 18 anos. Ele, vinte. Ela gosta de sorvete de morango. Ele prefere chocolate. Ela vai para o bar com os amigos às sextas à noite. Ele gosta de passar o fim de semana vendo Netflix. Ela assiste series. Ele, filmes. A série preferida dela é How I Met Your Mother, ele acha que Friends é bem melhor.

Ela é leonina. Ele aquariano. Ela acredita em horóscopos. Ele na ciência. Ela é de humanas e ele de exatas. Ela adora estar cercada de pessoas, ele detesta. A cor preferida dela é preto, a dele, branco.

Ela não consegue ficar parada. Ele é encontrado muitas vezes em algum canto lendo um bom livro. Ela acredita em amor à primeira vista. Ele em compatibilidade. Ela ainda acha que vai encontrar a sua alma gêmea, ele desistiu depois do quarto romance fracassado.

Ela gosta de musicas indie, e ele de heavy metal. O sonho dela é fazer um mochilão, o dele é sobreviver a uma maratona de Harry Potter. Ela chama a atenção por onde passa. Ele prefere ficar nas sombras.

Ele é geek e ela prefere o estilo “bad boy”. Era a primeira vez que ela foi sozinha para um bar aleatório — ela não queria ser encontrada. Ele também foi para um bar na mesma noite, forçado por um amigo, obviamente. Vale lembrar que ele preferia a solidão, então foi inevitável ele acabar sozinho perto do barman.

Ele olhou para a direita e reparou em uma garota a algumas cadeiras de distância. E, contra todos os seus princípios, ele decidiu pagar uma bebida para ela. Não me entenda mal, ele não via nenhum problema em pagar uma bebida a uma garota, mas o rosto dela estava inchado e ela definitivamente passou as últimas horas chorando, e, além dele não saber como consolar uma mulher — nem um dementador o fazia fugir mais depressa do que lágrimas femininas — ele não queria ser o tipo de cara que se aproveita da vulnerabilidade da garota.

Ela, obcecada pela sua série favorita, não pode deixar de odiar ele de primeira. Como ele ousava querer se aproveitar dela enquanto ela estava desse jeito? Ele se apresentou como Lucas mas, para ela, ele tinha cara de Barney. Na verdade, a única coisa que a segurou de jogar o martini nele foi ele não estar usando um terno. Você pode até achar paranóia, mas ela estava de saco cheio de idiotas.

Ele, com uma recém descoberta auto confiança, possivelmente provocada pelo shot de absinto — o amigo disse que era vodka, e ele só aceitou tomar porque era fraco e “um shot não faria nenhum mal” — não deixou se intimidar pela atitude seca da garota. Está bem, talvez ele tenha se intimidado só um pouco, afinal bebida não faz milagre. E ela, por sua vez, não sabia como lidar com a situação. Quer dizer, ela reparou que o amigo do garoto estava observando a cena, com cara de expectativa, diga se de passagem. E ele estava claramente alterado (ele acabou tomando o martini que tinha comprado para ela).

Ela tinha observado os dois chegarem. Seu hobby secreto era observar pessoas nos bares, e ela o vinha fazendo desde que chegou naquele bar, há três horas atrás. Ela adorava a sensação de estar em um mundo particular, onde podia focar na vida alheia e esquecer da própria, completamente isolada de todos a sua volta. Então você pode imaginar como ela odiou quando ele a abordou, estourando assim a bolha que ela tinha criado para protegê-la do mundo.

Ele, não fazendo ideia do que se passava na cabeça dela e, principalmente, o quanto ela achava que precisava ficar sozinha, tentou consola-lá. Foi uma tentativa tão, mas tão fracassada, que ela, contra todas as possibilidades, acabou achando uma gracinha. Uma bebida levou a outra, e, pouco a pouco, as barreiras dos dois foram desaparecendo. Ela finalmente contou o motivo do seu choro; ela descobriu que o idiota que ela tinha a audácia de chamar de “namorado” a estava traindo com outra.

Depois de três bebidas ela finalmente se apresentou, e na quarta ele até conseguiu tirar uma risada dela. Ele adorou o som. Ela estava assustada de como era fácil e simples falar com ele. Ele ficou surpreso com a quantidade de tempo que ela admitiu passar em bares. Ela achou engraçado o amor dele por Harry Potter. Ele concordou em dar mais uma chance para How I Met Your Mother, desde que ela fizesse a mesma coisa com Friends. Ele acabou admitindo que até gostava de frequentar o bar, mas no fundo ele sabia que era só por causa da companhia dela.

Ela, na sétima bebida, desistiu e concordou que nem sempre horóscopos estavam certos (mais tarde ela acabou culpando a bebida por ter dito isso e até hoje ela passa horas lendo o horóscopo). Os dois acabaram concordando que cinza até que é uma boa cor.

Duas horas de conversa e oito bebidas depois, ambos estavam com o abdômen dolorido de tanto rir. O amigo dele apareceu e avisou que tinham que ir embora. Ele não queria deixá-la. Ela não queria que ele fosse embora. Ele pediu o número dela. Ela anotou o seu verdadeiro número pela primeira vez, ao invés de escrever uma serie de números aleatórios para algum idiota deixá-la em paz. Ele acabou partindo com a promessa de um próximo encontro. Ela acabou rindo sozinha por um bom tempo, não ligando se parecia uma bêbada maluca. Ela não conseguia parar de pensar em como os opostos realmente se atraem, e em como ela passou a vida toda procurando por seu semelhante. E ele? Bem, ele já estava planejando o próximo — de muitos — encontros.

Larissa Cantiere

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Bruno Amador