– Vamos fazer um trato?

– Lá vem besteira… Depende, qual o acordo que a senhorita me propõe?

– Que sejamos a companhia um do outro. Mas não estou falando de namoro, casamento, amizade colorida ou esses títulos que as pessoas dão quando estão enroladas umas com as outras. Estou falando de companhia para cerveja e para aqueles filmes cult que só você assiste.

Vamos rebobinar a história para você, caro leitor, entender como se iniciou esse diálogo. Lucas e Juliana se conheceram no fim de 2014 no fumódromo de uma balada, ela tinha cigarro e estava sem fogo pois quando foi à padaria comprar mais um maço se negou a aceitar isqueiros laranjas. Ela detesta essa cor. Já ele, tinha isqueiro e estava sem cigarro porque, bem, porque ele era bolsista numa faculdade cara e gastava todo trocado que tinha em xerox para as aulas de engenharia.

E assim, juntando o útil ao agradável, os dois se ajudaram, dividiram cigarro, isqueiro, uns copos de vodca e dores nas pernas no dia seguinte por uma noite devassa de dança. Dalí em diante passaram a se ver às vezes, bem pouco na verdade. No entanto, o suficiente para terem boas histórias juntos e um vínculo de amizade diferenciado. Desses que mesmo que você fique semanas sem ver ou falar com a pessoa, quando volta é leve, tranquilo e sem dramas. Como sei de tudo isso? Sou o narrador onisciente desse e de outros diálogos estranhos que os dois tiveram. Agora voltemos a conversa deles.

– Parece justo. Mas você está chapada e vou ter que te levar para casa. Aposto que de manhã não vai lembrar de nada do que disse e me mandar uma mensagem contando que sua mãe percebeu de novo que você fuma maconha.

– Então vamos passar tudo por escrito.

– Beleza. Você tem papel?

– A gente escreve no guardanapo. Pede uma caneta aí pro garçom.

Lucas pediu uma caneta a Sérgio que sempre atendia a mesa 8. Ele olhou com cara de desconfiado. Contudo, entregou a caneta que usava atrás da orelha para anotar os pedidos de toda aquela gente que busca alívio e risadas nas mesas de botecos.

– Pronto. Você é a de humanas aqui. Redija o acordo, moça.

– Mas eu estudo fotografia. Você é o engenheiro aqui. Aquele que sabe escrever.

– Mas você é a leitora do Nelson Motta, a que assina a “Folha”.

– Porém, você é bolsista, tirou nota boa na redação.

– Preguiçosa para caralho. Mas beleza, eu escrevo. Como vamos esboçar isso?

– Ixe, estou vendo que a nota na redação não deve ter sido tão boa assim, deixa que eu faço. Ela escreveu por uns instantes e leu o seguinte para ele: Nós, (inserir nome) e (inserir nome), nos comprometemos terminantemente a manter uma relação de amizade e sexo verdadeira, sem brigas (a não ser nos clássicos do Flamengo e Fluminense nos quais Lucas sempre estará errado), diante das seguintes regras…” Aí a gente escreve as regras e assina no final, sacou?

– Vou relevar essa palhaçada ai de eu estar errado, Fluminense sempre será melhor que o Flamengo e isso não se discute, mas gostei. E as regras são tipo como?

– Pensei em algo como, “Nada de ciúmes”, ou “Proibido mudar a estação de rádio quando entra no carro” sabe? Coisas do gênero.

– Entendi, já tenho algumas. Escreve aí “Está proibido apaixonar-se pelo sorriso do outro”.

– Quem disse que eu sou apaixonada pelo seu sorriso?

– Você acabou de admitir, além do que já disse isso uma vez na varanda lá de casa.

– Exibido! Eu tenho outra, “Fazer cócegas no outro quando está chapado”.

– Ah, mas essa é a graça de fumar com você.

– É, mas da última vez eu caí no chão com uma crise de riso tão grande que pensei até que fosse ter uma parada respiratória.

– Beleza, dramática! Coloca aí, EXPLICITAMENTE proibido tomar Skol Beats e Stella.

– Qual é? Eu adoro Stella.

– Por isso mesmo, cerveja de mocinha e você é muito ogra pra beber isso.A partir de hoje te intitulo Brahmeira.

E assim seguiram pelas duas horas seguintes escolhendo e debatendo as regras. Acendendo e apagando baseados, dando crises de risos e molhando a garganta com cerveja. A conta, que já estava pendurada a muito tempo, só fazia crescer diante de Sérgio, o garçom que atendia a mesa 8. Por uns instantes paravam, se beijavam e começavam outro assunto que de imediato os lembrava de uma nova boa regra.

E depois de muita negociação Juliana leu o tal acordo que ficou redigido da seguinte forma:

“Nós, Lucas Cavalcantti e Juliana Almeida, nos comprometemos terminantemente a manter uma relação de amizade e sexo verdadeira, sem brigas (A não ser nos clássicos do Flamengo e Fluminense nos quais Lucas sempre estará errado), diante das seguintes regras: É explicitamente proibido se apaixonar pelo sorriso do outro; dizer que está com saudades; negar o convite para o boteco de terça; transar sem derrubar os objetos da casa; olhar profundamente nos olhos; fazer cócegas no outro quando está chapado; falar sobre os atuais ou outros relacionamentos; limpar o batom no moletom do Lucas; andar de mãos dadas; tomar Skol beats (ela realmente não abriu mão da Stella); arrebentar a alça do vestido de Juliana porque Lucas não tem paciência para tirar a roupa dela; negar sexo; negar comida depois do sexo; negar comida antes do sexo; roubar o isqueiro do outro, sentir ciúmes; falar durante os jogos da NFL (pode parecer estranho, mas essa regra foi escrita por Juliana que não aguentava mais Lucas narrando as possíveis jogadas); ser fã do Justin Bieber (apesar dele estar mandando bem no novo álbum). No caso de quebra de tais regras, o transgressor pagará multa de equivalente a 50 reais ainda sob possíveis outras penas.” Agora a gente assina o nosso nome e fica tudo resolvido.

– Ficou muito engraçado, mas genial.

– Será que vai dar certo?

  – Só podemos descobrir de um jeito, vamos ao McDonald’s.

– Agora? Por quê?

– Porque está “terminantemente proibido negar comida antes do sexo”.

Manoela Amaral – clique para ver o Facebook dela

Ela também está no Instagram.

Aqui no site temos um projeto que se chama Quinta Colaborativa (clique no link para saber mais sobre), toda quinta – se possível -aqui postaremos textos que vocês nos enviarem, então se você tiver algo guardado aí, nos mande, se algum amigo seu escrever, fale da gente. Você pode entrar em contato pela chat da página, ou comigo mesmo pelo Facebook. Ou pelo email umquartodepalavras@gmail.com, só coloque no assunto “quinta colaborativa”. Se você não quiser que seu nome apareça podemos colocar uma abreviação ou nem colocar nada

Bruno Amador